10/04/2007: Paulo Araújo de Almeida: Reflexão sobre Educação Patrimonial
Reflexão sobre a proposta de trabalhar a Educação Patrimonial nas Escolas de Cachoeira de Minas.
Paulo Araújo de Almeida , março de 2007.
Mestre em Arqueologia pelo MAE/USP.

Todo o movimento para uma política de preservação do patrimônio histórico:

- Isso é bom para o povo, então vamos trabalhar em educação patrimonial, mostrar para as pessoas da “comunidade” que essa consciência da identidade coletiva através dos bens patrimoniais é importante para elas, mesmo que, no momento, elas estejam ocupadas principalmente com outras coisas.

Assim também se falou que a igreja, as igrejas eram fundamentais para as pessoas e os poderosos vestiram suas batinas de humildade interessados em construir paróquias e mais paróquias. As pessoas se engajaram nessas obras e, piamente, fizeram delas seu patrimônio cultural, enquanto que apenas alguns se arvoraram em tê-las como seu patrimônio material e se alimentaram delas.

Entre a consciência de si e a consciência das coisas, o que se pretende? O patrimônio está na memória e Jung mostrou que existe um inconsciente coletivo. Coisas que estão na memória de um grupo de gente, mas não podem ser lembradas ou reconhecidas no momento. Vamos trabalhar para que as pessoas se tornem conscientes dessas coisas que lhes pertencem sem que ainda o saibam. Pergunto então como isso deve funcionar: Primeiro nós, os sabedores, especialistas, mestres, vamos descobrir as coisas do passado através de certos vestígios que pudemos analisar, para depois levar as pessoas da comunidade, os estudantes, a acreditar ou reconhecer aquilo como valores? Não. Vamos caminhar junto com a comunidade numa espécie de “des-coberta” da memória. Isso deve ser interessante, pelo menos politicamente correto, como se diz, e principalmente trazer alguma idéia de que, mais que reconhecer verdades em si, lidar com aquilo que se considera patrimônio é trafegar no mundo dos valores.

Se como advertiu Einstein: “Do mundo dos fatos não conduz nenhum caminho para o mundo dos valores, porque estes vêm de outra região”, é certo que apenas acumular informações numa instrução volumosa, passa distante do que se poderia conceber como educação, pois educação seria relativo a algo que está mais próximo do indivíduo, na possibilidade de transformação da sua própria consciência.

O problema do jovem e de toda a nossa sociedade é que “valor” tende a representar apenas aquilo que serve para alguma coisa. Para que serviria então a montanha cada vez maior de bens do patrimônio histórico e cultural que são catalogados e musealizados se as pessoas não aprenderem a encontrar satisfação em imaginar através deles um passado que pudesse fazer questionar o que se experimenta no presente? Toda a política de patrimônio histórico assim como a gestão de seus elementos deve servir para algo alem de criar leis, cargos e instâncias de poder como uma nova modalidade da velha igreja, agora com as roupas da moda.

Mesmo que hoje em Minas Gerais exista um interesse legislado e financeiro (Lei n. 12040/95 - Robin Wood, que prevê pontuação cultural para repasses de ICMS aos municípios) como “carro chefe” do interesse em levar a educação patrimonial para o povo, essa viabilização pode e deve ser aproveitada como oportunidade de se proceder a um questionamento sobre os caminhos que tomam para as pessoas e para a sociedade as coisas como valores. Esse é o processo de formação de uma consciência de identidade cultural, permitir que se brote para a ciência dos cidadãos suas tendências para tomar certas posições a partir daquilo que se traz do passado, ou seja, da sua própria formação. Conhecer de que modo conteúdos que ainda não estão perceptíveis podem determinar o que se pensa ou não se pensa. Somente com essa reflexão e o conhecimento daí advindo, existe a possibilidade de uma verdadeira mudança de qualidade.

Obter produtos, esse é o objetivo ao qual a máquina de consumo quer levar as pessoas. E a gente trabalha, e a gente negocia, e a gente engana e rouba, a gente faz qualquer sacrifício, destrói, até mata às vezes, para ter as coisas que nos convencem serem importantes para a nossa vida em sociedade. Por isso que é necessário tomar em pauta sempre a questão de valores, o que conduz cultura, identidade e preservação do patrimônio necessariamente ao campo da ética e da política.

O que se tem enquanto patrimônio seja de propriedade particular ou um bem público, mas que diz respeito à vida, ao passado e à cultura de todo um povo, precisa ir além de promover os recursos financeiros que se espera do patrimônio como atrativo turístico, para dar um exemplo do que ocorre aqui no sul de Minas Gerais, além da formação de equipes assalariadas trabalhando na área dentro de uma estrutura municipal criada para tal. Se tudo isso é necessário e deve acontecer, vale não esquecer que o mais importante e significativo em toda essa questão da Educação Patrimonial é promover uma reflexão crítica, a ser feita pela própria comunidade, daquilo que ela na sua história, tem absorvido enquanto valores.

A Educação para o Patrimônio Histórico não deveria ser apenas mais uma matéria, dentro do horário, da grade escolar, mas a busca de um re-conhecimento do indivíduo como ser cultural e social em sua relação com o meio ambiente, e meio ambiente não é só o biótico, mas todo o espaço em que se vive. Reconhecer o estado da paisagem urbana e rural como resultado da interferência da história, também ruas e edificações, os objetos, produtos artísticos, tudo aquilo que o homem produziu segundo o seu modo de vida tem um valor como patrimônio. E isso inclui principalmente as maneiras do fazer tradicional dos grupos humanos (patrimônio intangível) e, deve-se considerar ainda, seus modos de pensar, de analisar e julgar as coisas como resultado de um jeito próprio de ser que no final das contas é a própria cultura.
Responsável
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Rosimeyre Maria dos Santos Passaro

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