21/04/2007: João Bosco Fernandes: Dewey, Bentham, Mill e o Utilitarismo
FUNDAMENTOS DO UTILITARISMO DE BENTHAM E MILL SOB A ÓTICA DE DEWEY
João Bosco Fernandes
Mestre em Filosofia – Ética
PUC-Campinas – Bolsista CAPES

RESUMO
O presente trabalho procura apresentar a leitura que John Dewey faz do utilitarismo de Bentham e Mill. O seu objetivo ao avaliar criticamente a teoria utilitária é completar a apresentação das diversas faces da filosofia moral presentes nas obras: “Teoria da Vida Moral” e “A Natureza Humana e a Conduta”.

Palavras-chave: Ética – moral – Utilitarismo – aprovação – deliberação.

Dewey trabalha alguns temas nas obras que tratam da ética: “Teoria da Vida Moral” (1908) e “A Natureza Humana e a Conduta” (1922) e nesse contexto temático elabora uma avaliação crítica do utilitarismo, por estar inserido no conjunto de temas da investigação ética que se propõe a fazer e que se pode concluir que a referência ao utilitarismo deve-se à pertinência da teoria em sua proposta de reflexão ética nas referidas obras.

John Dewey nasceu em 20 de outubro de 1859, 27 anos depois de J. Bentham, que faleceu em 1832 e 14 anos antes da morte do principal discípulo de Bentham, John Stuart Mill, que faleceu em 1873. De certa forma se pode dizer que Dewey foi contemporâneo de Mill. Tais informações podem ser relevantes ao se considerar as avaliações críticas, feitas por Dewey, ao utilitarismo de Bentham e Mill e se inscreve como um dos mais antigos críticos do utilitarismo moral.

Dewey foi muito influente. Suas idéias se estabeleceram tanto nos Estados Unidos quanto em quase todo o mundo. Manteve uma intensa atividade teórica, dedicando-se à redação de inúmeros escritos dos quais destacam-se: “Psicologia” (1887), “Meu Credo Pedagógico” (1897), “Como Pensamos” (1910), “Democracia e Educação” (1916), “Reconstrução em
Filosofia” (1920), “Teoria da Vida Moral”(1925) e “A Natureza Humana e a Conduta” (1922)”.

“O centro de todo o pensamento de Dewey é a concepção que ele mesmo chamou “instrumentalismo”, para diferenciar-se dos pragmatismos de Peirce e Willian James, dos quais partira”. (Pensadores, 1980, p. VII)
Dewey via como sendo falsos problemas as “dualidades matéria-espírito, exterior-interior, pensado-pensamento por considerar a consciência como contemplação”. (Pensadores, 1980, p. VII) Dizia: “O pensamento não tem fim em si mesmo, é uma fase da vida, um acontecimento que se produz num ser vivo, em certas condições configuradoras de uma situação de conflito para o homem”.
(Pensadores, 1980, p. VII) Com isso justificava o seu “instrumentalismo” ou “funcionalismo”, em que o conhecimento é atividade dirigida e parte funcional da experiência. A ação moral, segundo Dewey é conduzida por três princípios de origens distintas: o bem, concebido como fim, a regra do dever e a apreciação do outro. Isto explica a sua divergência, em parte, do utilitarismo dualista, que separa a moral do conhecimento moral.

O pragmatismo instrumentalista de Dewey vê o pensamento, diferentemente dos outros pensadores contemporâneos que estabeleceram dicotomias entre o ideal e o real, entre o espírito e natureza, como unidade espiritual que deve ser estabelecida.

A maioria dos argumentos, neste trabalho, afirmados por Dewey, constituem uma crítica ao utilitarismo - apresentando os problemas da teoria utilitária e também a sua contribuição para uma teoria da moral - e traz conceitos importantes, tais como: aprovação e desaprovação, padrão e igualdade (ao avaliar a conseqüência da ação), disposição pessoal e de caráter, hedonismo, atitude, sentimentos, deliberação, leis e instituições que serão identificados e desenvolvidos no utilitarismo de Bentham e Mill. Dewey apenas os contextualiza para elaborar o seu argumento.

Trazer a filosofia de Dewey para ser investigada, principalmente no campo da ética, é o objetivo deste trabalho, pois se trata de um pensador contemporâneo e influente em várias partes do mundo. Torna-se, mais ainda, pertinente e relevante, a pesquisa que está se propondo a fazer se considerarmos a ligação da investigação ética de Dewey com a linha de pesquisa da PUC-Camp, ou seja, o utilitarismo e seus críticos, que na descrição deste trabalho se restringe a Bentham e Mill. É uma proposta de trabalho inédito, que vem contribuir com os estudos do utilitarismo no Programa de Pós-graduação em filosofia.

Pesquisar os conceitos de natureza ética, levantados por Dewey, nas leituras que fez de Bentham e Mill, como por exemplo: aprovação e desaprovação, padrão, disposição pessoal e de caráter, deliberação e outros significa percorrer o mesmo caminho do filósofo.

Dewey, argumenta a sua crítica à teoria utilitária a partir de conceitos como: padrão e aprovação e relaciona-os com a matriz da ética teleológica. Afirma que o princípio em que se apóia a atribuição de louvor e censura constitui o que é conhecido como padrão. É o fundamento do julgamento em seu sentido prático. Nesse tipo de teoria, o conceito de Padrão ocupa o lugar mantido, respec-tivamente, pelo Bem e pelo Dever. O principio segundo o qual a aprovação e a reprovação se devem regular, argumenta, torna-se '"categoria" ética dominante, que tem precedência sobre o bem e o obrigatório. Isso porque, nessa teoria, aquilo que moralmente é um bem está aprovado, ao passo que direito é aquilo que deve ser aprovado. Os deveres passam do reino das coisas de facto, exigidas pela pressão social, para o reino dos atos de jure, que são legitimamente exigidos somente porque estão de conformidade com o padrão da aprovação; caso contrário, serão coercivos e restringem a liberdade. Direito é aquilo que merece aprovação; errado é o que merece punição, encoberta ou atenuada na forma de censura.

É significativo que, no todo, a idéia de aprovação ou desaprovação e seu próprio padrão é característica da teoria moral inglesa, como a de fins é a dos gregos, e a de dever a da filosofia ética dos romanos. É implícita na teoria grega, na importância ligada à medida e à proporcionalidade no julgamento de atos e na tendência de identificar, com as expressões to agathon, o bem, e to kalon, o belo. Mas, na moral inglesa, comenta Dewey, formar teorias com a manifestação de aprovação e condenação, e sua influência na formação do caráter, torna-se pela primeira vez fundamental.

Aparece em Shaftsbury, como intuição imediata do sentido moral, estritamente comparável ao ''bom gosto" em questões estéticas; para Hume, a aprovação é idêntica ao que "agrada segundo a opinião geral”, isto é, após generalização refletiva, distinta da primeira reação pessoal; a concepção de Adam Smith — ser ela aquilo que satisfaz o "espectador imparcial"— é uma variante da mesma idéia.

Para Bentham, a maioria das interpretações de seus predecessores achava-se ainda demasiado infestada de "ipse dixitism", vício — segundo ele — de todas as teorias sobre a intuição. Procurou um principio geral, impessoal e objetivo, pode-se traduzir por critério de utilidade, que controlasse e justificasse as reações pessoais de bom gosto ou do que quer que seja. Encontrou implícito em Smith e, especialmente, em Hume, o conceito de que a utilidade de uma ação ou um traço de caráter para outros é a base fundamental da aprovação, ao passo que o desserviço e a nocividade é fundamento da condenação e depreciação.

Os homens aplaudem espontaneamente os atos que os auxiliam, que promovem sua felicidade: não se precisa procurar explicação para esse fato. Simpatia é também, traço original da natureza humana. Dada a simpatia, louvamos atos que auxiliam outros mesmo quando nossa própria sorte não está envolvida: somos movidos, pela simpatia, à indignação, ao infligir-se voluntariamente sofrimento a terceiros. A simpatia transporta-nos à posição deles, e participamos de seu júbilo ou da veemência de seu ressentimento, como se estivéssemos pessoalmente interessados. Somente o indivíduo anormalmente insensível não se emociona com os atos heróicos de devoção para com o bem-estar de outros, ou com os atos de vil ingratidão e maldoso despeito.
Há, entretanto, ao comentar o argumento de Bentham, definidas limitações ao exercício espontâneo e costumeiro da admiração e do ressentimento movidos pela simpatia. Raramente ele se estende para além daqueles que nos são mais chegados: membros de nossa família e nossos amigos.

Raramente opera em relação aos que estão longe dos olhos ou aos que nos são estranhos, não, certamente em relação aos inimigos. Quanto a esse último caso, a admiração e a desestima irrefletidas são superficiais; levam em consideração casos extraordinários e distintos de auxílio e dano, não, porém, os de espécie mais delicada e sutil; observam conseqüências no sentido de assistência e dano que surgem num tempo curto, não os que aparecem mais tarde, mesmo que sejam, na verdade, mais importantes. E, finalmente, quando certos fatos se tornam habituais, são aceitos como naturais, como fenômenos da natureza, e não são, absolutamente, julgados. As conseqüências benéficas e prejudiciais de leis e instituições, por exemplo, não são levadas em conta pela moralidade costumeira.

Seguem-se, dai, segundo Dewey, certas mudanças introduzidas pela teoria do utilitarismo, do padrão de aprovações. Quando os homens reconhecem que a contribuição para a felicidade ou bem estar universais é o único fundamento para admiração e estima, eliminam as três limitações que acabaram de ser mensionadas. O padrão generaliza-se; tem-se que julgar as conseqüências do bem-estar e do infortúnio gerais para todas as criaturas sensíveis afetadas por um ato. A mesma ênfase sobre as conseqüências gerais ou espalhadas traz à tona a idéia de igualdade, e o faz de modo a transformar a costumeira concessão de louvor e censura, simpatia e ressentimento. Isso, entretanto, não põe no mesmo pé de igualdade a felicidade do próprio indivíduo e de outros, de um membro da família e de um estranho, de um cidadão e de um estrangeiro, do proprietário e do empregado, do rico e do pobre.

A teoria do utilitarismo, além de insistir em levar em consideração o âmbito mais amplo e mais geral das conseqüências, insiste em avaliá-las no sentido de auxílio e dano, prazer e sofrimento, cada um considerado isoladamente, independentemente de diferenças de nascimento, sexo, raça, posição social e posição econômica e política. É significativo que a ascensão e a principal influência do utilitarismo, na Inglaterra, pensa Dewey, coincidiu socialmente com a manifestação de sentimentos filantrópicos em grande escala e, politicamente, com a aparição de ideais democráticos. Não é um acidente que sua influência prática foi modificar as leis e instituições que surgiram do fomento dessa desigualdade. Decorre dessa última idéia uma possível deturpação do pensamento de Bentham feita por alguns de seus críticos.

As confusões que o utilitarismo, segundo Dewey, apresentam com relação à defesa de sua matriz ética serão, identificadas no pensamento de Bentham e Mill ao afirmar que foram abordadas até aqui importante feição do utilitarismo. Falou-se em termos gerais sobre bem-estar, beneficio e danos, sem tentarmos especificar em que consistem justamente. Bentham, porém, orgulhou-se com o fato de o utilitarismo conter concepção definida e mensurável sobre sua natureza. Segundo ele, consistiam em unidades de prazer e dor, era simplesmente sua soma algébrica. Reduziu, assim, conforme seus adeptos, a vaga noção de bem-estar e felicidade a um fato tão preciso de modo a ser capaz de enunciar uma quantidade.

Essa definição em "unidades" de prazer e dor teve, porém, outro efeito. Expôs o utilitarismo, comenta, a todas as objeções que se podiam apresentar contra o hedonismo. Nem se detiveram nesse ponto as conseqüências de sua identificação. Envolveu o utilitarismo, conforme seus críticos prontamente assinalaram, em peculiar contradição. De conformidade com sua concepção de desejo e motivo, o único objeto — alvo de toda ação — é a obtenção de prazer pessoal. O próprio padrão para julgar a moralidade da ação é, entretanto, contribuição ao prazer de outros, benefício concedido a outros, menos ao próprio indivíduo. Os utilitaristas viram-se, assim, afirma Dewey, confrontados pelo problema do conflito entre o estritamente pessoal e o caráter egoísta do motivo da conduta, e o caráter amplamente social e filantrópico do padrão de aprovação. O desejo de prazer particular como o único motivo de ação e a benevolência universal, como o princípio de aprovação, se entrechocam.

O principal interesse de Bentham estava no padrão de julgamento, e aceitar a psicologia hedonista foi, em sentido amplo, acidente histórico. Deixou ele de perceber a inconsistência dos dois princípios, porquanto seu próprio interesse estava no efeito iníquo das leis e instituições de sua época sobre a distribuição geral da felicidade e da infelicidade. Percebeu a extensão dos interesses de classes que elas exprimiam, animadas pelo favoritismo a interesses especiais, trazendo benefícios a uns poucos privilegiados e danos e sofrimentos às massas. Essa contextualização do utlitarismo de Bentham parece diminuir a inconsistência de sua teoria, crê Dewey. Ora, leis e instituições podiam ser encaradas impessoalmente, com respeito apenas a suas conseqüências, uma vez que os motivos não podem ser atribuídos a leis e instituições como tais.

Seu prosélito, apelida Dewey, John Stuart Mill, conquanto interessado em reformas políticas e sociais, achava-se também interessado na moralidade pessoal de um modo que Bentham não estava. Lembrou, portanto, da questão de disposição pessoal e de caráter, e instituiu transformação na moral utilitária, embora jamais renunciasse formalmente à psicologia hedonista. Antes, porém, de examinar minuciosamente a contribuição de Mill, Dewey enuncia o problema da relação de disposição com as conseqüências sociais benéficas em sua forma geral. Suponha que se abandone a ênfase hedonista sobre estados de prazer e dor e a substitua pela idéia mais ampla — se bem que mais vaga, argumenta Dewey — de conforto, bem-estar e felicidade como padrão apropriado de aprovação. Prevalece ainda o problema da relação do padrão para a disposição pessoal. O problema moral que confronta toda pessoa está em fazer com que o respeito pelo bem-estar geral, pela felicidade de outros, que não a dele, seja o propósito que regula sua conduta.

É difícil fazer do respeito pela felicidade geral o padrão do que é certo e errado, mesmo numa avaliação puramente teórica, pois tal método de avaliação contraria nossa tendência natural de colocar em primeiro plano nossa própria felicidade e a das pessoas que nos são mais chegadas. Essa dificuldade, porém, é menos importante em comparação com a de tornar eficaz, na ação, a avaliação intelectual, sempre que ela colida com nossa parcialidade natural a nosso próprio interesse.

É evidente que somente disposição pessoal e íntima, segundo Dewey, capacitará para se resolver tais problemas. Quanto maior importância se der às conseqüências objetivas como padrão, tanto mais seremos obrigados a recorrer ao caráter pessoal como única garantia de que esse padrão atuará quer intelectualmente em nossas avaliações quer praticamente em nossa conduta. Com isso há que se questionar ao argumento de precisão pela qual se louvou Bentham, pois introduz impossibilidade na conduta do momento.

Pode-se fazer uma avaliação na base de experiência da tendência geral de uma ação proposta com relação ao bem-estar e ao sofrimento, afirma Dewey; ninguém pode calcular, antecipadamente, todas as unidades de prazer e dor (mesmo admitindo que elas podem ser reduzidas a quantidades unitárias) que advirão. Temos certeza de que a atitude de bondade pessoal, sinceridade e lisura fará, provavelmente, com que nosso julgamento sobre os efeitos de uma ação proposta, a bem de outros, seja infinitamente mais correto que os de ódio, hipocrisia e egoísmo. Um homem que simplesmente confiasse em detalhes de conseqüências externas poderia, prontamente, convencer-se de que a eliminação de determinada pessoa, por meio de assassínio, contribuiria para a felicidade geral.

Não se pode imaginar uma pessoa honesta convencendo a si mesma de que a disposição de desrespeito à vida humana tivesse conseqüências benéficas. É verdade que, por um lado, o padrão fundamental para o julgamento de atos são suas conseqüências objetivas; o resultado constitui o significado de um ato. Mas é igualmente verdade que a garantia para a exatidão do julgamento e para o poder do julgamento operar como influência na conduta situa-se na formação intrínseca do caráter; seria mais seguro confiar num homem de disposição bondosa e honesta, embora sem muita habilidade para cálculos, que num homem dotado de grande poder de previsão do futuro, mas malicioso e insincero, afirma Dewey. Quando, por outro lado, julga-se o valor moral de leis e instituições (isto é, avaliando-as do ponto-de-vista de sua importância sobre o bem-estar de todos), estará em ordem considerar impessoal e detalhadamente as conseqüências, pois, sendo impessoal a consideração, elas não têm disposição interior quer num sentido quer noutro.

Mill, portanto, destaca Dewey em contraposição a Bentham, trouxe o utilitarismo em concordância mais íntima com o imparcial senso moral dos homens, quando disse que considerar da mesma maneira que o consideram e amar o próximo como a si mesmo constituem a perfeição da teoria utilitária. Tal asserção coloca a disposição e o caráter em primeiro lugar e o cálculo de resultados específicos em segundo. Conseqüentemente, segundo a teoria de Mill, conforme comenta Dewey, pode-se dizer que as leis e disposições sociais devem colocar a felicidade do indivíduo, tanto quanto possível, ern harmonia com o interesse do todo, e que a educação e a opinião, que tão grande poder têm sobre o caráter humano, aqui talvez possa se referir à formação de hábitos, deviam usar esse poder de modo a estabelecer, no espírito de todo indivíduo, uma associação indissolúvel entre sua própria felicidade e o bem do todo.

Resumindo, tem-se um princípio pelo qual pode-se julgar o valor moral das disposições sociais: tendem elas a orientar os membros da comunidade para encontrarem sua felicidade nos objetos e propósitos que trazem felicidade aos outros. Há, também, um ideal formal e informal destinado aos processos de educação. Dewey, indiretamente faz referência à sua teoria sobre educação. Esta deve criar, em todas as pessoas, interesses em promover o em geral a fim de que encontrem sua própria felicidade realizada naquilo que podem fazer para melhorar as condições dos outros.

A ênfase sobre a disposição pessoal aparece também no desejo de Mill, conclui Dewey, de ver certas atitudes cultivadas em si e para si mesmas, como se fossem, em si mesmas, fins sem pensamento consciente das conseqüências externas. Intrinsecamente, e pela própria formação, à parte qualquer cálculo, aprecia-se as relações amistosas com outros. Naturalmente
"desejamos estar em harmonia com nossos semelhantes... O estado social é, ao mesmo tempo, tão natural, tão necessário e tão habitual ao homem que, exceto em circunstâncias extraordinárias ou por esforço de abstração voluntário, o homem nunca concebe a si mesmo senão como membro de um organismo... Qualquer condição, portanto, essencial ao estado da sociedade, torna-se, cada vez mais, parte inseparável da concepção que cada pessoa tem do estado de coisas para que nasceu e é o destino do ser humano". Esse fortalecimento dos Laços sociais conduz o indivíduo "a identificar, cada vez mais, SEUS sentimentos com o bem" dos outros. "Ele passa, como que instintivamente, a estar consciente de si próprio como um ser que, naturalmente, tributa respeito aos outros. O bem de outros torna-se-lhe coisa a ser atendida natural e necessariamente, como quaisquer das condições físicas de nossa existência.

Esse sentimento social, finalmente, por mais fraco que seja, não se apresenta "como superstição da educação ou lei imposta despoticamente de fora, e sim como atributo do qual não conviria ficar se privado... Poucos, salvo aqueles cujo espirito seja moralmente vazio, poderiam suportar traçar como norma de vida não tributar respeito aos outros, exceto quando seus interesses privados os obrigassem a isso"

Mesmo sob o nome de simpatia, Bentham, afirma Dewey,
"reconhece que ela não se estende a formas mais complexas de sentimento — o amor por amar, a necessidade de apoio simpatizante ou de um objeto de admiração e reverencia".
(Utilitarianism, cap. III, passim. 2 Early Essays, pág. 354.

"Autocultura, treino, pelo próprio ser humano, de suas afeições e vontade... é um espaço vazio no sistema de Bentham. A outra e parte co-igual, a ordenação de suas ações exteriores, é completamente vacilante e imperfeita sem a primeira: pois como podemos julgar em que maneira muitas ações a menos afetarão os interesses mundanos de nós mesmos e de outros, a menos que participemos, como parte da questão, de sua influência na ordenação de nossas afeições e desejos ou das desses outros?"

Dewey afirma que Mill viu que a fraqueza da teoria de Bentham estava em supor que os fatores que formam a disposição somente são de valor quando nos movem para atos especiais que produzem prazer: para Mill, eles têm valor próprio como fontes e ingredientes diretos de felicidade. Diz Mill:
"considero irrealizável qualquer aumento considerável de felicidade humana, através de meras mudanças em circunstâncias externas, desacompanhado de mudanças no estado de desejos."4 E em sua Autobiografia, falando de sua primeira reação contra o benthamismo, diz: "Pela primeira vez dei seu próprio lugar, entre as necessidades primordiais do bem-estar humano, à cultura interna do indivíduo. Deixei de emprestar quase exclusiva importância à ordenação de circunstâncias exteriores... O cultivo de sentimentos tornou-se um dos pontos cardeais em meu credo ético e filosófico".

A relação íntima entre felicidade e traços de caráter é, também, sustentada pelo fato de os prazeres diferirem em qualidade e não simplesmente em quantidade e intensidade. Apreciação da poesia, da arte, da ciência produz uma espécie de satisfação que não se compara com a que vem de fontes puramente sensórias. A extensão até onde o padrão atuante é mudado por Mill, dos prazeres para o caráter (uma vez que se classifica o prazer pela natureza do traço pessoal que o acompanha) é óbvia, no comentário que dewey faz sobre Mill de que nenhuma pessoa inteligente consentiria em ser tola, nenhuma pessoa instruída em ser ignorante, nenhuma pessoa de sentimento e consciência em ser egoísta e vil, mesmo que se convencesse de que o tolo, o ignorante ou o patife se sentem mais satisfeitos com sua sorte do que ela... “É melhor ser um ser humano insatisfeito que um porco satisfeito".(Idem, pág. 357. 4 Idem, pág. 404. 5 Autobiography, Londres, 1884, pág. 143).

Dewey dedicou considerável espaço a consider a mudança de Bentham para Mill, não tanto como questão de contraste e informação históricos quanto pela posição de que esta última envolve de fato, se bem que Mill não o reconhecesse em palavras ou em textos, uma renúncia ao elemento hedonista no utilitarismo. Como esse elemento hedonista é que torna o utilitarismo vulnerável na teoria e inoperante na prática, é importante saber que a concepção do respeito pelo bem-estar social (que é generalizada e imparcialmente medida) pode ser mantida como padrão de aprovação a despeito de o utilitarismo estar historicamente emaranhado em um hedonismo insustentável. E isso não é negado por Mill.

Essa versão revista reconhece o grande papel representado por fatores internos para o "eu" ao criar uma felicidade digna, ao mesmo tempo que lhe provê um padrão para avaliação moral de leis e instituições. Isso porque, à parte o sofrimento direto que as más disposições sociais ocasionam, têm elas conseqüências danosas nas disposições que conduzem à felicidade elevada e pura.
Conclui Dewey, as Instituições são boas não só por causa de sua contribuição direta ao bem-estar, mas, ainda mais, porque favorecem o desenvolvimento das disposições dignas das quais advêm prazeres nobres.

O valor do utilitarismo para Dewey estava, de uma certa forma resgatam-se as intenções de Bentham, em “adotar o bem-estar social como um padrão e, além disso, tornar-nos intelectualmente sensíveis e críticos com relação ao efeito das leis, disposições sociais e educação sobre a felicidade e o desenvolvimento do homem. O utilitarismo histórico, mesmo com o freio de sua psicologia hedonista, prestou grande serviço na Grã-Bretanha ao desembaraçar-se das desigualdades na lei e na administração, e ao tornar as massas conscientes da relação que existe entre a opressão e a corrupção políticas, de um lado, e o sofrimento das massas, de outro”.

Dewey elogia o utilitarismo de Bentham alegando que:
“Ao utilitarismo, com todos os seus defeitos, pertence a glória de haver, de modo inesquecível, difundido a idéia de que o bem moral, como todo o bem, consiste em uma satisfação das forças da natureza humana, no bem estar, na felicidade. A Benthan pertence, a despeito de todas as suas imperfeições e excentricidades, o mérito imperecível de haver efetivamente tornado acessível à consciência popular a noção segundo a qual a "consciência" isto é, a inteligência aplicada a questões morais muito freqüentemente deixa de ser inteligência para ser um capricho velado, um dogmatismo intransigente, um interesse de classe oficialmente reconhecido. Ela é verdadeiramente consciência somente quando contribui para a mitigação da miséria e para a promoção da felicidade. (John, DEWEY, Theory of Moral Life, pp. 70-78)

Um exame sobre o utilitarismo ressalta quão calamitoso é pensar no bem, ao qual inteligência se une, como consistindo de penas e prazeres futuros, e na reflexão moral sendo como que seus cálculos algébricos. O utilitarismo acentua o contraste entre tais concepções de bem e de inteligência de um lado e os fatos relativos à natureza humana de outro, de acordo com o que o bem, a felicidade se encontra no sentido das atividades do presente, sentido esse dependente da proporção, ordem e liberdade introduzido nelas pela inteligência à medida que esta descobre objetos que libertam e unificam elementos que em outras circunstâncias seriam antagônicos”.

Infelizmente, segundo a crítica de Dewey, o Utilitarismo segue uma psicologia falsa e tem, conclamando uma reação, na realidade fortalecido a_corrente dos que persistem em atribuir à moral um domínio separado de ação, uma espécie de dualismo, e em exigirem um agente separado do conhecimento moral. Os fundamentos desta falsa psicologia repousam em duas características. A primeira de que o conhecimento origina-se das sanções (ao invés de dos hábitos e impulsos, conforme teoria já elaborada por Dewey) e a segunda de que o julgamento sobre o bem e o mal atuante consiste num cálculo de conseqüências agradáveis e desagradáveis, de lucros e perdas.

Não é surpreendente que no parecer de muitos esse ponto de vista degrada a moral ao mesmo tempo que falseia os fatos. Se a conclusão lógica de um ponto de vista empírico sobre o conhecimento moral é que toda a moralidade se prende a cálculos do que seja prudente, político ou conveniente em termos de conseqüências que proporcionam sensações agradáveis ou penosas, nesse caso, dizem os moralista da escola ortodoxa, com referência a Kant, nada temos que ver com tal sórdido ponto-de-vista: é a redução ao absurdo de sua própria premissa. Teremos um departamento separado para a moral e um órgão separado do conhecimento moral.(John DEWEY, Human Nature and Conduct. P. 168)

Em uma última avaliação crítica do utilitarismo, afirma Dewey:
“Um destino trágico parece estar presente em todos os movimentos intelectuais; o do utilitarismo é sugerido pela não infreqüente crítica segundo a qual essa doutrina exagerou o papel do pensamento racional na conduta humana, supôs que todas as pessoas são movidas por cogitações ou considerações conscientes e que tudo que é realmente necessário consiste no se esclarecer suficientemente o processo do pensamento. Então, nega-se que uma melhor psicologia revele que homens não são movidos pelo pensamento, mas sim, pelo instinto e hábito. Assim, uma crítica em parte acertada é levada a efeito a fim de ocultar aquele fator na teoria utilitária, do qual devemos extrair algum ensinamento e é usado para incentivar uma doutrina obscurantista, qual seja a de se confiar nos impulsos, no instinto e na intuição. Nem os utilitaristas, nem ninguém, pode exagerar o papel próprio da reflexão, da inteligência na conduta. O erro não repousa aqui mas sim numa concepção falsa sobre o que constituem reflexão e deliberação. A verdade que estabelece não serem os homens movidos por considerações de interesses próprios, que os homens não sabem conhecer onde os seus interesses residem e que não são movidos à ação por esse conhecimento, não pode ser propriamente convertida na crença de que considerações sobre as conseqüências é um fator insignificante na conduta. Insignificante até onde seja na prática esse fator evidencia o estado rudimentar em que se acha a civilização. Podemos supor, de início e com segurança, que impulso é hábito, não pensamento, são as determinantes primárias da conduta. Mas, a conclusão a ser tirada desse fato é a de que há, portanto, uma necessidade maior de se cultivar a inteligência. O erro do utilitarismo não está neste ponto. O seu erro encontra-se na concepção errônea de que seja e o que realiza o pensamento, a deliberação”. (John DEWEY, A Natureza Humana e a Conduta, pp. 174-175).

BIBLIOGRAFIA
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