
17/12/2007: O Cotidiano das mulheres na colheita do café
COTIDIANO DAS MULHERES PIRANGUINHENSES NA COLHEITA DO CAFÉ
Por Débora Rosana Silva e Sueli Caetano
Introdução
A lua nem dera lugar ao sol e já se via acenderem as chamas dos fogões a lenha, barulho de panelas, marmitas, caldeirões, choro de crianças ressoavam nas muitas cozinhas de Piranguinho: era período de colheita de café; muitas mulheres com marido, filhos, pais e amigos se preparavam para mais um dia de trabalho.
Entender este período histórico foi o nosso grande interesse; estabelecer as relações entre os diferentes sujeitos envolvidos no processo econômico, cultural e social da atividade cafeeira, especialmente as mulheres. Para tal, delimitamos a área de pesquisa, nossa cidade: Piranguinho. Delimitamos também nosso objeto de pesquisa, objetos vivos por sinal: sete foram as nossas entrevistadas: Dona Ana (51), Dona Nice (42), Dona Neca (65), Dona Maria do Carmo (48), Dona Luzia (42), Dona Benedita (73) e Dona Zilda (46).
Desfrutando da História Oral, procuramos adentrar no universo dos cafezais, pois sempre que ouvimos falar a respeito da atividade cafeeira é sobre a implantação, apogeu e crise, nada mais que isso. E os trabalhadores que dedicaram suas vidas em tal atividade? Em que capítulos da história nacional estão incluídos? Motivadas por tal problemática, resolvemos introduzir também os trabalhadores na historiografia nacional, enfocando sempre a participação feminina na atividade cafeeira. Assim partimos para a coleta de dados; primeiramente traçamos um paralelo entre as entrevistadas que ainda atuam na atividade e as que já não estão envolvidas, mas que ao longo de suas vidas construíram historias no universo do cafezal. Abordando as razões que levaram muitas mulheres a deixar a atividade enquanto que outras permanecem até os dias atuais, nossa discussão permeou em volta de continuidades e rupturas. Para tanto, o período analisado por nós estende-se de 1980 a 2005.
O que nos deixou extremamente satisfeitas foi o bom relacionamento com o documento vivo, que diferente do documento escrito é carregado de emoções, o que nos fez tratá-lo com um cuidado especial. Com as mais extrovertidas sorrimos, contamos piadas e mesmo com as mais introvertidas conseguimos arrancar expressões muito marcantes, fazendo com que elas deixassem florescer a memória, arrancando do passado tanto os bons quanto os maus momentos, proporcionando a nós um conhecimento oral riquíssimo, mais ainda para a História Social.
Nas linhas que se seguem, tentamos passar da linguagem oral para a linguagem escrita, esboçando de maneira clara as relações que permeavam as mulheres sobre os pés de café.
1 - A chegada do café no Sul de Minas
Para a compreensão das relações que se desenvolveram no interior dos cafezais, faz-se necessário o conhecimento da trajetória do café desde o oriente até sua expansão no ocidente, onde no Brasil se tornou uma atividade de grande significação, colocando nosso país a posição número um no ranking mundial de exportação.
A origem do café está envolta por lendas, não possuindo comprovação histórica definitiva, mas sabe-se que esta planta e originária da Etiópia, centro da África, sendo propagada para o mundo chegando até a Europa através dos árabes e, mais tarde, ao continente americano através dos colonizadores europeus.
O café chegou ao norte do Brasil, mais precisamente em Belém, em 1727, e devido às condições climáticas o cultivo se espalhou rapidamente, com produção voltada para o mercado domestico. Em sua trajetória pelo Brasil o café passou pelo Maranhão, Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo. Paraná e Minas Gerais e, num período relativamente curto, o café passou de uma posição secundaria para a de produto base na economia brasileira.
O ponto de partida das grandes plantações foi o Rio de Janeiro, com as matas da Tijuca transformando-se em grandes cafezais. O café estendeu-se para Angra dos Reis, Parati e chegou a São Paulo por Ubatuba. Em pouco tempo, o Vale do Paraíba se tornou a grande região produtora da lavoura cafeeira no Brasil. Esta região, com altitude e clima excelentes para o cultivo, possibilitou o surgimento de uma área centralizadora de culturas e população. Subindo pelo rio, o café invadiu a província de São de Paulo e a região de Minas Gerais.
Tratando agora mais especificamente do Sul de Minas, é interessante ressaltar que a lavoura cafeeira chegou à região em fins do século XVIII; entretanto, adquiriu expressividade em fins do século XIX e inicio do XX, superando a produção fluminense. Muitos historiadores acreditam que isto se deva ao fato da dificuldade de locomoção e ausência de estradas, com transporte realizado somente através dos tropeiros. Até o século XVIII predominava a atividade aurífera, não havendo incentivo para agricultura de exportação, tendo a existência somente da agricultura de subsistência A grande expressividade da região mineira era a pecuária sendo a carne transportada pelos tropeiros para o Rio de Janeiro, grande produtor de café até então. Nesta relação comercial foram trazidas as primeiras mudas de café para região de Minas Gerais. Em um primeiro momento, teve grande êxito na região da Zona da Mata e posteriormente avançou para o Sul da província. De inicio foi cultivado para consumo próprio; paulatinamente para o atendimento da demanda local e de forma tímida contribuiu para exportação, quantidade difícil de ser calculada devido à escassez de registros. Provavelmente, como afirmam vários historiadores, o café foi introduzido na região através dos tropeiros, segundo Valverde (1967: p.2):
Diz-se que os tropeiros vindos de Minas Gerais então em absoluta decadência e do Vale do Paraíba deixavam suas mercadorias no Rio e iam carregar as cangalhas de suas mulas com mudas e sementes de café, no Medanha, antes de subirem a serra de volta.
Como já citamos anteriormente, em fins do século XIX o café alcançou grande expressividade nas exportações e isto se deveu ao desenvolvimento do sistema ferroviário que permitia o transporte do produto para os portos de São Paulo e Rio de Janeiro. Dentro deste contexto, nas proximidades de Itajubá e Pouso Alegre, região que já contava com expressivas fazendas, surge o pequeno arraial da Estação do Piranguinho, por onde também passava o café produzido nas redondezas.
Agora, após o conhecimento da trajetória do café já estamos aptas a levá-los para um universo bem mais amplo, onde as relações não são somente de lucros e decadências, mas de experiências de vida.
2 - O café como único horizonte
É sabido que a atividade cafeeira no Brasil contou com a contribuição da mão-de-obra feminina. Primeiramente, essa mulher era a escrava que, não designada para o trabalho doméstico, ia juntamente com os demais negros para a lavoura; em um segundo momento, quando o Brasil já não suportava mais o modo de produção escravista, esta veio a ser substituída por uma nova mão-de-obra, a assalariada, contando com a força de trabalho de estrangeiros das diversas partes do mundo e também a dos negros livres. Mais uma vez aí estava o trabalho feminino.
O trabalho da mulher, portanto, acompanha a produção cafeeira desde o início, pois ao analisarmos a trajetória do café no Brasil não encontramos uma ruptura nem mesmo com a decadência da atividade a partir dos anos de 1960. Neste momento ocorre uma ascensão acentuada do nível industrial e conseqüentemente uma mudança de foco, do campo para a cidade, construindo um novo estilo de vida. A atividade cafeeira, porém, não desaparece, havendo ainda grandes produtores, com a mentalidade conservadora de que o Brasil deveria continuar agro-exportador. Muitos trabalhadores não acompanharam o movimento migratório para as cidades e permanecem no campo mantendo relações arcaicas de dependência baseadas em fatores como gratidão, medo, ignorância sobre os próprios direitos.
No início da década de 1980, Piranguinho já conseguira sua emancipação política, mas continuava uma pequena cidade sem atividades industriais, sendo o núcleo urbano bem menor que o rural. Embora Itajubá, cidade vizinha muito próxima, contasse com uma tímida industrialização, muitas famílias permaneciam no campo envolvidas em diversas atividades como o cultivo de arroz, feijão e milho. Estas atividades estavam voltadas para a subsistência, em sistema de parceria ou nas pequenas propriedades do agricultor, porém nunca se esquecia do café, sendo uma atividade bastante significativa para aquisição de renda no município e também muito esperada entre os trabalhadores rurais, visto que não se colhe café o ano inteiro. Podemos perceber claramente com a fala de Dona Benedita Zeferina da Silva: "Quando não tinha café, nóis ia ajuda na lavoura, prantá arrois, fejão." Ela deixa claro que a mão-de-obra feminina não estava limitada somente a atividade cafeeira, mas também nas múltiplas atividades econômicas desenvolvidas no campo.
No decorrer da pesquisa percebemos que a atividade cafeeira havia se tornado uma tradição entre as famílias camponesas no nosso município, que nos meses de maio a outubro não enxergavam outro horizonte que não fosse à colheita do café. Colhiam o fruto nas fazendas de Piranguinho e também nas cidades circunvizinhas, principalmente Brazópolis e Santa Rita do Sapucaí. Famílias inteiras se deslocavam rumo aos cafezais, e quando falamos em famílias inteiras, aí estão incluídas as forças de trabalho femininas, que desde o ventre da mãe, quando bebê, e depois menina, moça, adulta e idosa estava envolvida na “panha” do café.
Através das falas das mulheres entrevistadas fica nítida a trajetória de vida construída nos cafezais, segundo Cleonice a gravidez não era empecilho para ela:"Barriga não atrapalha não." E ainda Dona Benedita dizia: “Eu tava grávida, panhei café o mês de maio, junho, julho e em agosto a Antônia Célia nasceu." Mesmo com o nascimento da filha, Dona Benedita não parou de “panhar” café; logo depois voltava às atividades levando consigo o bebe recém nascido: "Ponhava ela numa baciona, levava uma coberta e ela dormia no chão." Cleonice também ressalta que criou seus filhos no cafezal: “Não tinha com quem deixa os filhos, aí eu levava tudo.”
O interessante é que, ao serem indagadas, as entrevistadas revelaram que, assim como seus filhos, também começaram a ir para o cafezal desde muito pequenas. “Desde a idade dos oito anos já ia pro cafezal com minha mãe, varria o café, pegava peneira e banava o café”, afirma Dona Cleonice. Dona Neca confirma: “Panhei café muito tempo, desde o tempo que era moça”. A partir dos depoimentos percebe-se que, para muitas famílias, nascer e crescer tendo como horizonte o cafezal tornou-se uma tradição e uma cultura. As brincadeiras de banar, “panhar” e varrer eram atividades do cotidiano que tornavam as meninas aptas para o trabalho... no cafezal.
3 - Tristezas e felicidades: foi um tempo bom!
Segundo Halbwachs, no livro Memória e Sociedade, de Ecléa Bosi, a lembrança vem a ser a sobrevivência do passado, sendo que este se conserva no espírito de cada ser humano. Corroborando esta idéia, Ecléa diz que o passado conserva-se e atua no presente, suscitado por determinadas lembranças.. E foi através das lembranças que pudemos revisitar o passado e, posteriormente, fazer uma analise das vivências e experiências embutidas em cada rememoração. O fato de entrevistarmos dois grupos diferentes de mulheres, um ainda atuante e outro não, não nos fez perceber distorção de enfoque, pois o universo do cafezal possibilitou a formação de uma memória coletiva que se faz a partir da junção das memórias individuais.
Deparamos-nos com dois horizontes, um sendo aquele em nos é relatado o lado exaustivo, de sofrimento, de tristezas, e o outro, aquele que proporcionou alegrias, divertimentos, prazeres e saudades. Comecemos então pelo lado exaustivo, que mostra um universo nem um pouco atraente, e não poderia ser diferente, já que estamos falando de classe trabalhadora. Isto fica visível mediante a fala de Dona Benedita: “Saia de casa seis horas (...) Panhar era bom, agora varrer, banar... Não podia deixar um grão de café senão o feitor xingava (...) Ganhava muito pouco no cafezal, era muito pouco (...) Pra você vê como a gente sofre na roça, é marimbondo, achava até cascavel enrolada no pé." Dona Maria do Carmo reforça: "Trabalhava direto, só pára pro café e almoço." Dona Ana também: “Era sacrificado quando os pé de café era grande."
Nesse universo do cafezal muitos foram os momentos ruins e desagradáveis.
Observamos nos depoimentos que muitas vezes elas evitaram falar dos momentos de tristeza; é como se escolhessem apenas as lembranças boas, aquilo que lhes haviam causado prazer, momentos felizes de descontração. Aí percebemos o quanto a memória é seletiva, fazendo questão de explicitar somente aquilo que é conveniente; é como se estivéssemos em um quarto e convidássemos para entrar somente quem nos agrada, mas infelizmente um ou outro indesejáveis sempre entram pela janela sem serem convidados. Nossas entrevistadas, apesar de mencionarem as dificuldades, deixaram aflorar com mais intensidade as lembranças boas e concluíram conformadas como Dona Cleonice: "Mas que era gostoso era. Eu adorava panhar café”. Dona Benedita sustenta: "Eu gostava, gostava". Dona Ana recorda: "Era gostoso panhar café, era divertido". Dona Maria do Carmo acompanha: "Eu gosto de panhar café".
Nem mesmo as briguinhas atrapalhavam nessa rememoração saudosa. Elas eram comuns entre essas mulheres, principalmente quando uma pegava rua mais avantajada que a da outra, quando se panhava mais café que a outra, mas nada de grave acontecia. É o que garante Dona Maria do Carmo: "As vezes sai fofoca, briguinha, porque um apanha mais que a outra, mais depois ta tudo bem".
Como no cafezal acontecia de tudo, não podiam deixar de faltar as relações amorosas, onde numa piscada de olho, num sorriso, num sinal a relação se concretizava. O fato não é muito comentado, mas através das risadinhas, de um olhar disfarçado, de arrumar do corpo na cadeira, percebemos que amor e traição estavam presentes. Dona Neca confirma: "Às vezes tinha namoro sim, as moças largava o cafezal e ia namorar". Exemplifica: "O Zé Vítor memo era um que gostava de namorar". Dona Cleonice procura esclarecer, entre risos: "Quando eu era solteira tinha um rapais bonitão, mas quando eu era solteira". Dona Ana revela: "As meninas saia da rua e iam bater papo com os namorado". Dona Luzia informa: "Tem bastante gente que casou com pessoas do cafezal, como o Val e a Valdete". Ainda revela: "Antigamente tinha uma mulher que saia com o fiscal, mas a gente não podia falar né ?".
Além desse ambiente de descontração, o cafezal era o local onde encontravam para obtenção de renda para ajudar em casa, como é o caso das mulheres casadas e muitas das solteiras, pois na maioria das vezes quem administrava o dinheiro era a mãe ou pai, não chegando a ver a cor do dinheiro como Dona Benedita: "Quando solteira dava o dinheiro para ajudar na compra". Dona Neca revela a mesma condição: "Depois que casei, o dinheiro era meu, não dava pra ninguém não".
Mesmo assim, alegria de muitas era que no final da colheita iam para a cidade de Aparecida do Norte; era um sonho para elas, pois passavam a colheita planejando a viagem, era natural, pois não tinham pra onde ir. Muitas vezes perdia-se o caráter religioso da romaria. Dona Neca conta: "O meu dinheiro era mais pra mim comprar roupa, ajudar fazer compra, ir na Aparecida (...) O dinheiro que ia na Aparecida do Norte era dinheiro do café" (...) Antes a gente ia pra Aparecida e dormia lá, levava esteira pra dormir, levava lenha. A noite saía lá, era gostoso, levava tudo de casa, cozinhava lá, era gostoso".
Se fossemos matemáticos, concluiríamos, pelo maior volume das boas lembranças, que o “tempo do cafezal” era de fato compensador. É comum sentirmos saudades de outros tempos e, assim, idealizarmos o passado quando as coisas eram melhores, os sentimentos mais puros, as ações mais corajosas. Mesmo os sofrimentos ganham dramaticidade e tanto as tragédias como a dureza da vida tornam-se, em nossa memória, momentos heróicos. Pode seu também que se convertam em motivos de riso e se transformem em “causos” contados e recontados em rodas de amigos e em família. Nos depoimentos, sentimentos de prazer, contentamento, emoções e felicidade se sobrepuseram aos momentos de cansaço e sofrimento, fazendo com que a entrevistada registrasse num sorriso acompanhado da frase: "Foi um tempo bom!”
4 - Alienação e exploração
Quando nos referimos ao universo que se desenvolve em volta dos pés de café, porém, não podemos camuflá-lo como sendo local que proporciona somente alegria e descontração às trabalhadoras. Ali está implícita a relação patrão e empregado, relação esta que se desenvolve em cima de exploração do camponês. Exploração não reconhecida pelo trabalhador, talvez pelo fato de alienação, isso se pode perceber através dos depoimentos das mulheres, que em momento algum reconhecem tal exploração, ainda que digam ser um trabalho difícil, sofrido, procuram finalizar a frase dizendo "que é bom" ou "que é gostoso".
Junto ao nascer do sol, saíam das fazendas os tratores, os caminhões para buscar os trabalhadores que logo começariam a "panha", fato este que é visto com bons olhos pelas mulheres, como podemos ver pela fala de Dona Benedita, a mais velha do grupo que entrevistamos: "De primeiro nóis não tinha condução, nóis ia a pé, depois começou a ter condução de trator".
Durante todo o dia de trabalho as mulheres ainda tinham que conviver com o inconveniente, com o desagradável feitor que não dava tempo e nem moleza, fiscalizava pé por pé, rua por rua, pra ver se estavam fazendo o serviço direito, figura esta que fazia questão de ser temido, pois quanto mais rigoroso, melhor seria aos olhos do fazendeiro. Dona Benedita descreve: "Eles ficavam olhando, não podia deixar o fruto no pé, tinha que fazer o trabalho bem feito". Dona Neca deixa escapar nomes:O que era ruim no cafezal era o seu Dito, não podia quebrar um galho de café, era encrenqueiro, mas o seu Geraldo da Cruz era bonzinho; o seu Dito era ruim, se enchia o saco demais, ele achava ruim, falava que não era cavalo, o povo tinha uma cisma dele". Dona Ana conta: “Os fiscais eram ruins, tinha aqueles que pegava no pé, não podia deixar café para traz, mais nóis sempre fazia certinho aí eles não pegava no pé".
Além de ter que conviver com a desagradável presença do feitor durante o dia, elas ainda tinham que correr contra o tempo para dar conta de colher uma quantidade considerável de café, para que no final da quinzena recebessem uma quantia que desse para a subsistência. O sistema adotado nos cafezais era o de medida, tendo que colher 60 litros e em outras fazendas chegava a ser 80 litros para dar uma medida de café. Quanto mais medidas colhessem, é claro, maior seria o rendimento financeiro. Todas deixaram isso bem claro. Dona Benedita: "Panhava por lata, 80 litros, mais pra frente panhava por saco". Luzia: "Funcionava por medida, quase um saco, uma latona". Dona Ana: "Eu e as crianças panhava uns 8 sacos por dia, quando panhava bastante dava pra ganhar bem". Dona Maria do Carmo: "É um serviço duro, porque tem que trabalhar bastante para tirar o salário". Dona Zilda: "Não tinha hora de almoço e nem de café, pois tinha que trabalhar direto, para ganhar mais".
Fica visível através dos depoimentos, que o trabalho nos cafezais era extremamente explorado, uma vez que essas pessoas eram estimuladas a mostrar produção, pois não possuíam um salário estipulado, ganhava-se de acordo com o que se colhia. Na verdade, esse sistema de medidas instituído nas fazendas é uma estratégia utilizada pelos fazendeiros que de certa forma força o camponês a trabalhar muito, uma vez que ele nem percebe a exploração e a indignação maior está em uma das falas, como a de Dona Maria do Carmo diz: "Quanto mais panha café, diminui o preço da medida, de R$ 4,20 foi para R$ 1,80, pra você vê como é sofrido".
Entre os momentos de felicidades e tristezas, foi possível captar nos depoimentos uma atitude de transgressão. Somente uma delas, após muita conversa e risos, acabou relatando o motivo que a fez abandonar o cafezal, assim como muitas outras de seu grupo. Trata-se de um fato que podemos caracterizar como expropriação, se analisarmos pelo lado do que elas trabalhavam muito e ganhava pouco: "O povo roubava café no calderaozinho, de tanto que o povo fazia a gente acabava pegando também (...) Enchia o galão de água de café. Um dia a polícia foi no cafezal revistar o povo e só foi gente correndo e escorregando ladeira abaixo". Uma transgressão que aponta para muitas outras não contadas; para uns, sinal de desonestidade, para outros, atitude de resistência ao trabalho mal remunerado: "Panhava café o dia inteiro, ganhava pouco, chegava em casa e ainda tinha que comprar café".
No Brasil, demorou-se muito para enxergar a situação de exploração em que vivia o trabalhador rural, ainda numa condição de alienação que não lhe permitia a manifestação. O primeiro governo de Vargas, quando foram estabelecidas as leis trabalhistas que amparavam o trabalhador urbano, deixou o trabalhador rural a margem. Este veio a ter um amparo perante a lei só em fins da década de 80 com a nova Constituição, mas ainda assim demorou muito para que estas leis fossem acatadas pelos patrões. Nossas entrevistadas, por exemplo, só passaram a ser registradas em fins da década de 1990. A alienação maior ocorre quando a legalidade é uma iniciativa do fazendeiro que, com medo das punições, implanta mudanças significativas na vida do agricultor, sendo vistas por este como uma benevolência. Essas mulheres acham a coisa melhor do mundo ir para o cafezal, pois agora são registradas, recebem férias, décimo terceiro, tempo de serviço e o melhor ainda, entram no seguro desemprego. Dona Maria do Carmo está satisfeita: “Comecei a ser registrada a partir de 90. Hoje recebo férias, décimo terceiro e também tempo de serviço". Dona Luzia descreve a mudança: "Antes de 1998 sempre trabalhei sem registro, era um esquema de recibo, chegava no final do mês a gente assinava e recebia". Hoje, "a colheita vai até dezembro, aí a gente recebe o décimo terceiro, as férias, o tempo de serviço e entramos no seguro desemprego".
Podemos perceber que hoje a situação do trabalhador rural mudou; já não se trabalha mais na ilegalidade, proibiu-se o trabalho infantil e exige-se certa proteção, como a utilização de bota, calça, chapéu; há uma maior segurança tanto no âmbito da proteção quanto no financeiro. Entretanto, não se pode generalizar, pois existem muitas fazendas que não aderiram à lei. Em visitas feitas, percebemos a ausência de registro para muitas trabalhadoras e também falta de segurança, situações estas que ocorrem devido à falta de fiscalização governamental, relegando ainda o trabalhador rural ao segundo plano.
5 - Cafezal e serviço doméstico: continuidades e rupturas
Na análise dos depoimentos das mulheres que relatam o seu cotidiano nos cafezais percebe-se a presença de rupturas e continuidades. Quando falamos em rupturas estamos nos referindo a um número de mulheres que não se encontram mais no universo do cafezal, pois encontraram um novo horizonte que antes não viam, devido ao fato de não possuírem muito contato com o meio urbano. Mudanças ocorreram com a gradativa melhoria na possibilidade de locomoção e pelo afrouxamento dos laços familiares dando abertura para mulher deixar sua casa e ir trabalhar na cidade, principalmente para a cidade de Itajubá. Nesse momento ela começava a perceber que o trabalho em casa de família é mais seguro e menos sofrido que o cafezal. Dona Benedita confirma: “De primeiro era muito difícil, não era carro era mais bagageira, ninguém tinha costume de trabalhar na cidade, hoje ninguém quer panhar café.”
Como a colheita do café não se estende o ano inteiro, fora desse período muitas deixaram de ir mais a lavoura de arroz, feijão e milho, passando a trabalhar como domésticas na cidade para complementar a renda familiar, situação muito comum no bairro Grotão, local muito mais próximo de Itajubá do que do centro de Piranguinho. Dona Ana confirma: “Deixei de panhar café, porque na cidade era melhor, faxina dava mais.” Dona Zilda concorda: “Se tiver outro trabalho prefiro, como trabalhar em casa de família.”
Diante das rupturas, nos deparamos com as continuidades, pois encontramos no universo do cafezal piranguinhense inúmeras mulheres que permanecem em tal ofício. Com toda a modernização, poderiam ter optado por novas oportunidades de trabalho (ocorridas principalmente com a construção da rodovia BR 459, sendo implantadas várias linhas de ônibus). Muitas delas preferiram se manter na atividade cafeeira, devido ao fato de não terem se identificado com as novas oportunidades de emprego fora do cafezal, pois ali foram construídas suas raízes. Foram anos e anos de experiências, de histórias construídas entre os pés de café, levando-as a acreditar que o cafezal é muito melhor que o trabalho em casa de família, ou em qualquer outro, pois ali no cafezal se sentem livres e satisfeitas. Podemos perceber através de depoimentos como o de Dona Maria do Carmo: “É um serviço bom porque o patrão não vai no serviço, se fizer tudo certinho o administrador não enche o saco e dá tudo certo.” Dona Luzia ainda prefere o cafezal: “Trabalhei em casa de família, loja,vendia laranja na rua, mas a melhor opção é o café.” Apesar de preferir trabalhar como doméstica, Dona Zilda não nega: “Trabalhei em Piranguinho um ano e meio e saí para panhar café, faz muita amizade é como se fosse parente.”
Percebemos que hoje em Piranguinho ainda existe um grande número de mulheres que permanecem na atividade cafeeira. É comum aquelas que habitam na zona rural irem para os cafezais o ano todo; observamos também que no período de colheita, no qual a necessidade de mão- de- obra é maior, várias mulheres da zona urbana que se encontram desempregadas partem também para o universo cafeeiro. Mulheres que permaneceram sobre os pés de café ou mulheres que partiram em busca de novas oportunidades de emprego: todas são sujeitos históricos carregados de experiência, a quem devemos dar o devido valor.
Considerações finais
Após mergulharmos no universo cafeeiro piranguinhense, através da memória das sete mulheres que entrevistamos, nos sentimos muito satisfeitas por trabalhar com uma realidade ainda ignorada pela história tradicional. Entrando em contato com as experiências de vida, descobrimos um universo bem mais amplo do que tínhamos em mente. Aprendemos que a colheita do café não se resumia, para essas mulheres, somente em colher, banar, varrer em ensacar o fruto, mas convertia-se também em um ambiente prazeroso de trabalho, onde rir, contar piadas, dividir a comida, conquistar e ser conquistada, constituíam estratégias para dar significado às repetições do labor cotidiano. Inconscientemente, podiam tornar-se pequenos atos de resistência diante da severidade ou dos caprichos do fiscal-feitor zeloso pelos interesses do patrão.
Percebemos que a colheita do café se tornara tradição entre muitas famílias e as meninas-moças, que logo se viam mulher, esperavam com entusiasmo – ainda que pelo hábito embutido no decorrer da existência – as próximas colheitas que lhes proporcionariam satisfação e, sobretudo, recursos financeiros. Mesmo que muitas permanecessem ali por falta de opções, era a vida que tinha de ser vivida da melhor maneira possível. Conhecer o cotidiano dessas mulheres nos proporcionou, acima de tudo, a percepção de sujeitos históricos que não são reconhecidos, mas que foram ao longo da historia nacional, de maneira especial de nosso município, de extrema importância para a economia local.
Foi sem dúvida uma experiência muito rica. Houve algumas dificuldades, como por exemplo, a falta de tempo disponível das entrevistadas e a falta de um material que nos proporcionasse um embasamento teórico consistente sobre a chegada do café em nossa região. Temos a consciência, porém, de que há ainda muita coisa a se aprofundar sobre o tema que abordamos em nossa pesquisa. Esperamos que outras pessoas possam dar continuidade, pois há muitos sujeitos relegados ao silêncio em nosso município e para termos uma história local consistente é preciso urgentemente dar voz a tais sujeitos. Felizes estamos por termos escutado o rápido bater de panelas, marmitas e caldeirões no quase iniciar o dia em solo piranguinhense, num período de colheita de café, em que muitas mulheres continuam a construir historias de vida. A certeza é que não podemos parar; vamos em frente por que já raiou o dia!
Por Débora Rosana Silva e Sueli Caetano
Graduadas em História