14/03/2007: Reflexão sobre a arqueologia , por Paulo Araújo de Almeida
Quem Somos Nós?

Paulo Araújo de Almeida
Conceição dos Ouros, 10/01/2008.

Vivemos aqui há mais de 700 anos e nunca ninguém se preocupou conosco. Os homens que nos criaram já desapareceram há pelo menos 200 anos, depois de perderem sua identidade e direito a ser os donos naturais dessas serras. Fomos utilizados como meios de servir aos nossos criadores, como auxiliares úteis ou enfeites artísticos com significados que misturavam magias e rituais, e assim dávamos sentido de comunidade àquelas pessoas.

Na Espanha do século XV acreditavam que nossos criadores não tinham alma, o que reduzia drasticamente nossa qualidade e significado simbólico. Usaram isso como argumento para escravizar e dizimar aqueles que nos moldavam e passamos a receber a tutela de gente diferente, a princípio de pele extremamente clara depois também negra, que passaram a nos lançar à mãos sempre estranhas, para longe do barro de nosso nascimento. O valor de uso e troca tornou-se maior que as representações pessoais e simbólicas que possuíamos nas mãos específicas de nossos donos. Muitos de nós fomos abandonados no solo e cobertos pelas camadas de terra que as intempéries do tempo nos lançaram sobre as costas. Raízes nos fragmentaram no frio e umidade de ácidos que nos corroeram.

Mas sempre aparecíamos, de uma forma ou de outra, à luz e vista de novas gentes que já não nos valorizavam como criações humanas. Não eram mais só aqueles escuros e brancos, mas marrons de tonalidades diversas, olhos de matizes estranhos desde os claros mais azuis e verdes até aos bastante pretos. Andavam vestidos e não mais nus e traziam para sua satisfação novos interesses de utilidades confeccionadas em materiais não mais de terra e pedra, mas minérios e depois o que chamam de “plásticos” com uma diversidade de formas que nos deixava perplexos.

E começamos a ser tomados como coisas negativas. Líderes vestidos de saias nos crucificavam perante a memória dos descendentes de nossos antigos criadores e usuários. Fomos constantemente apedrejados, lançavam-nos para o céu e atiravam fragmentos de metal sobre nós a partir de canos de fogo. Muitos de nós ficaram reduzidos à pequenos fragmentos, só porque as pessoas não podiam mais pensar nos nossos criadores, que passaram a ser tomados como pagãos, como bruxos que estavam fadados ao esquecimento, que deviam ser apagados da memória.

As danças sobre a terra úmida e o sol quente que nos dava vida e valor desapareceram, sobrevindo então nossa queda e afundamento. Gado pastou sobre nós, pequenas plantas chamadas “café” e depois “mandioca” vieram alfinetar nossos membros também estilhaçados por arados de ferro puxados primeiro por mulas e depois por máquinas de motor. Sobreviveram apenas aqueles que haviam sido abandonados prematuramente ou aqueles felizes que ganharam a honra de ser sepultados junto com seus criadores em valas mais profundas. Contivemos os ossos em nossas concavidades, mas se fossemos descobertos, mais certa seria nossa morte e destruição, na relação direta com a proximidade ao espírito de nosso criador. E isso era feito justamente pelas novas gentes, os ditos descendentes dos responsáveis pela morte e escravização de nossos criadores, cuja identidade ficava esquecida na sua pluralidade. A isso chamam miscigenação.

Ultimamente vimos percebendo a contradição no coração das gentes que querem ter o uso individual da terra. Chamam a isso de propriedade e direito de possuir um lote, onde fincam, não se importando conosco, alicerces de caixas de cimento, pedra e ferros que denominam agora de “casas” e não mais de ocas.

Alguns de nós foram retirados da terra e internados num isolamento que chamam de museu. No início certas pessoas amigas de nossos antigos criadores estiveram ali nos fazendo perguntas e até valorizavam nossa procedência. Chamavam-se pesquisadores-arqueólogos, mas depois foi colocado um guarda que nos renegou ao silêncio dentro de vitrines de vidro. Nossos protetores agora não sabem fazer-nos perguntas e apesar de cientes da localização de nossos pares nos campos de sítios, não se importaram quando grandes máquinas vieram sangrar as pastagens nos ameaçando e estilhaçando. Elas estavam a serviço dos chamados proprietários que indiferentes à nossa unidade, fingindo que não nos conheciam apesar de havermos sido anteriormente apresentados e até figurarmos nos relatórios oficiais da sua Prefeitura, estavam apenas interessados e fazer dinheiro com as partes de terra que nos cobriam.

Naquele dia fatídico alguns de nós foram aflorados à superfície pelas grandes pás de uma máquina escavadeira de arruamentos, outros receberam pneus de borracha que afundaram em suas barrigas. Eles odiaram nossa presença e aparição, e fomos arrancados sob forte chuva. Na ocasião um daqueles amigos, um arqueólogo que tentou defender nosso valor, foi violentamente agredido pelos ditos “donos do terreno”, que viam em nós não a possibilidade de reconhecer os valores do passado, mas sim um empecilho à sua ganância pelo dinheiro, a grande obsessão atual dessas gentes.

Então mandaram um representante de seu Governo que localizou e registrou em GPS alguns de nós na superfície do campo loteado. Entabularam promessas entre si de nos restituir o valor e pareceram felizes com acordos que esquecessem a violência perpetrada sobre nós, desde que nos reduzissem à números e técnicas distantes da agradável compensação de reabitarmos o coração e a memória das gentes.

Querem ampliar as vitrines-gaiolas para levar mais de nós para a prisão museológica. Fazem acordos de poder para inocentar responsabilidades de quem deveria salvaguardar nossa integridade, mais que conscientemente nos deixou à mercê dos seus tratores e estragos.

Na terra ou no silêncio forçado das mentes obscuras, como poderemos voltar a ser luz nas consciências? Somente quando as gentes de hoje se pacificarem com os nossos criadores, e reconhecerem os índios como valores ainda presentes hoje, que vêm atacar a ganância sem sentido da posse, consumo e poder que se apodera dos que vão se tornando os espiritual e materialmente cada vez mais pobres, os descendentes de nossos criadores.

Para eles somos apenas restos materiais, vestígios arqueológicos que sua cultura de civilização e progresso não pode tolerar à vida. Querem-nos pobres predestinados à perda, enclausuramento e esquecimento.

No entanto interessa pouco o que somos enquanto constituição imaterial. Medem-nos, nos colocam no microscópio eletrônico, juntam nossos pedaços em restaurações artísticas, nos catalogam e comparam, nos dão um valor em dinheiro como seguro ao nosso transporte entre os fortes-prisões que fazem parte das suas instituições sociais. Mas o que importa realmente é o que podemos dizer sobre as maneiras de agir, pensar, os desejos e intenções, os prazeres e ódios dos homens em diferentes períodos.

Fomos usados pelos homens para seu proveito, para facilitar sua vida ou para sermos admirados pela beleza que eles mesmos moldavam em nós. Agora o que mais importa é que possamos falar sobre esses “deuses” que nos criaram, mas para isso é preciso que nos façam as perguntas certas e que possamos ter o direito de continuar a existir. Somos os vestígios arqueológicos.
Responsável
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Rosimeyre Maria dos Santos Passaro

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