15/12/2008: Reflexões sobre Educação Patrimonial, por Paulo Araújo de Almeida
Reflexões sobre Educação Patrimonial


Paulo Araújo de Almeida


Esse texto faz uma reflexão sobre o processo de Educação Patrimonial realizado segundo o contrato n. 056/2008 assinado com a Prefeitura Municipal de Paraisópolis - MG durante os meses de maio a outubro de 2008. A partir de um Projeto encaminhado através da empresa Rede Cidade para o IEPHA (Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais) e segundo a política cultural do município que direcionou o trabalho para as turmas de quinta-série do Ensino Fundamental das Escolas Municipais, sucedeu-se visitas quinzenais da equipe com dois dias de permanência no município.

A presente reflexão teórica sobre o processo de execução do Projeto em Educação Patrimonial tem ainda como finalidade ordenar conceitos que possam juntamente com os registros obtidos a partir da experiência em Paraisópolis (centenas de fotos, horas de filmagens digitais, modelos de fichas, formas de exposição e leitura de objetos, feed back de aulas teóricas e textos de reflexão, reuniões com educadores e representantes do poder público) proporcionar alternativas de novos programas para a equipe, ou mesmo trabalhar na capacitação de outros educadores, professores, agentes de cultura ou profissionais de áreas relacionadas à história, cultura e sociedade, para a boa elaboração e execução de projetos similares em outros municípios de acordo com suas especificidades locais.

Os trabalhos se desenvolveram no objetivo de levar o estudante a desenvolver a consciência da necessidade da preservação do patrimônio histórico e cultural enquanto memória pública, a partir de exercícios experimentais visando uma tomada de ciência da dinâmica de funcionamento da memória primeiro no nível individual de cada aluno, depois ampliando em relação à sua turma, à escola e à família a que pertence. A valorização da memória enquanto processo mental que permite a lembrança do passado conduzindo à percepção da estrutura temporal, o que é condição inclusive para que se fale em aprendizado, foi trabalhada fenomenologicamente no sentido de atualizar experiências com a memória individual não apenas no nível intelectual, mas angariando todo o sentido vivencial do sensoriamente experienciado no tempo passado.

Essa relação entre passado e presente foi constantemente reiterada tanto através do programa de aulas expositivas nas escolas, composto de questionamentos sobre a cultura sul-mineira e sua formação histórica e social, como através de exposições de objetos representativos da memória individual e familiar do estudante. Esses objetos da memória que foram trazidos, fichados, fotografados, desenhados e interpretados pelos grupos de alunos através do método arqueológico, configuraram à posteriori mostras de cunho museológico que puderam ser apreciadas inclusive por outras pessoas da comunidade. A partir dessa primeira etapa de trabalho com objetos da memória, passou-se então do tempo de memória e valores pessoais, do contato com o tempo interpessoal e a memória no âmbito familiar, para o tempo do socialmente vivido no espaço da cidade (polis) pelas gerações do passado.

Foram então organizadas várias passeatas de estudantes pelas ruas da cidade e pelos arredores do município proporcionando um contato direto dos alunos com os bens patrimoniais tombados e/ou apenas inventariados pela municipalidade. O mesmo método de interpretação foi exercitado com os grupos para apreender o contexto específico do passado em que cada elemento ou conjunto patrimonial, fosse ele edificado, natural ou intangível, surgira como expressão de um modo cultural de vida que ao mesmo tempo se diferencia, mas também se aproxima daquele experimentado por todos no presente.

Partiu-se das análises sobre as atuais modificações sofridas no esquema de família tradicional, aquela constituída por pai, mãe, filhos e, às vezes, avós vivendo e coabitando numa mesma casa. Verifica-se que nesse âmbito parece não existir mais tempo – espaço para o cultivo da memória como tradição grupal. A realidade mostra que a estrutura da família mudou, uma vez que hoje a questão econômica e da sobrevivência material impera naquelas relações, assim como a questão da violência – segurança, o individualismo e niilismo que exaspera o homem vivendo no modelo neoliberal. A família como célula que dava suporte e desaguava naturalmente no círculo da sociedade e está como conjunto baseado nos relacionamentos estreitos entre famílias, não mais existe. O jovem adquiri contato sobretudo com um mundo de realidade virtual, mas tem poucas oportunidades de experimentar sensoriamente o concreto, para além daquele mundo de imagens apresentadas na tela do computador. Ciente dessa realidade, o Projeto usa e abusa de imagens para apresentar a história da formação cultural da região do sul de Minas Gerais, mas tendo em seguida o cuidado de fazer visitas in loco, para que os estudantes pudessem tocar e respirar os lugares da memória existentes no município.

Todavia, notamos que no sul de Minas Gerais, constituído em sua maior parte por municípios de porte médio, a família como se apresenta hoje ainda mantém (guarda) elementos (objetos) significativos enquanto registros do seu passado. Essa guarda mostrou-se sucedânea num interesse geralmente inconsciente das pessoas mais velhas que ainda puderam viver naquela estrutura familiar tradicional que os membros mais jovens da “família” não tiveram oportunidade de experienciar na prática do modelo atual: um sentido de unidade no interior do círculo familiar que apresentava maior coesão e senso de identidade na relação entre seus membros.

No entanto, o estímulo para o resgate simbólico de bens materiais (objetos) hoje velados pelas novas relações estruturais de consumo e troca que agem sobre o interior do corpo familiar, pode desobstruir a circulação de um elo perdido de identidade familiar que a antiga tradição garantia no passado. Os resultados das práticas propostas revelaram, da parte dos jovens estudantes participantes do Projeto de Educação Patrimonial, que o modelo de programa proposto foi capaz de gerar uma grande satisfação pelo novo sentido de identidade que proporciona. Verificou-se que nas exposições coletivas de objetos da memória tanto no nível da sala de aula, como no âmbito da comunidade escolar (exposições posteriores realizadas no pátio do colégio e em praça pública), os conjuntos de objetos simbólicos pertencentes a cada núcleo de convivência envolvendo dezenas de famílias, apresentaram similaridades capazes de revelar uma realidade histórica comum. Os estudantes puderam perceber e compreender, por eles mesmos, que a materialidade ali exposta apontava para a direção de uma tomada de consciência dos valores da memória pública, com a conseqüente necessidade da preservação do patrimônio coletivo da cidade.

Falar do caráter público do patrimônio histórico deixava de ser uma imposição ideológica para constituir valores culturais de pertencimento alicerçados no indivíduo em dimensões mais profundas e concretas do que a mera propaganda poderia penetrar. O sentido de cidadania enquanto pertencimento a uma realidade constituída a partir de um passado comum passa a ser realmente apreendido e não pode ser logo dissolvido no esquecimento uma vez que o estímulo desapareça, como acontece na propaganda patrimonial comumente veiculado pelos meios de comunicação. Infelizmente ainda se gastam milhões de reais mais com esse tipo de propaganda ideológica de mídia e interesse político, do que com práticas educativas consistentes. A forma como o Projeto em Educação Patrimonial se desenvolveu em Paraisópolis garantiu a construção de uma ponte segura levando dos sentidos de proteção nas esferas do indivíduo em suas relações domésticas para o social, público e responsabilidade cidadã. A preservação do patrimônio cultural se insere então como experiência vital estimulada a partir dos objetos, sejam eles tangíveis ou intangíveis, para naturalmente encontrar seu sentido político e espiritual.

A manipulação da preservação da memória por interesses políticos alheios a construção real de um sentido de identidade cultural, cujos alicerces deveriam se plantar cientificamente numa aproximação concreta entre a valorização da memória nos campos particular e no coletivo, fica exposta com evidência quando se faz uma comparação entre a propaganda corriqueira sobre o patrimônio histórico, com os efeitos efetivos do Projeto ora apresentado. Só através do reconhecimento da própria memória em seu caráter individual e como construção coletiva pela história, é que se pode assentar uma política de preservação do patrimônio histórico e cultural. Assim, preservar o patrimônio torna-se necessidade inserida na consciência pública, e não uma simples ideologia constituída para um público distante, que não seja ele mesmo constituído como cidadania através dela.

Pelo método de interpretação arqueológica oferecido pelo Projeto em Educação Patrimonial, os estudantes participantes puderam perceber e vivenciar claramente os possíveis sentidos do elemento patrimonial enquanto realidade nascida e presente no seu tempo passado. A partir daí é que se pode apresentar clara e concretamente a importância da preservação do patrimônio para o futuro, enquanto condição e possibilidade única para o exercício de uma apreensão sensível daquela realidade que desenhou a paisagem em que hoje ainda se pisa, atribuindo-lhe sobretudo valores profundamente guardados e protegidos pela chave de uma ampla compreensão que passa necessariamente pela experiência.

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Lisandra Angélica Ribeiro

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