08/08/2009: Centenário da Escola Municipal Almerinda Valente de Lima, Piranguinho, MG, por Joaquim Mota de Almeida
HISTÓRIAS QUE LI, OUVI E VIVI


Acompanhei de perto os acontecimentos relacionados à Escola Almerinda Valente de Lima. Agora que ela comemora seu centenário, tomo a liberdade de apresentar história que colhi junto aos antigos moradores do Distrito de Piranguinho e outras que eu mesmo vivi. Peço licença para repetir aqui acontecimentos que já foram narrados no livro “Estação do Piranguinho: as origens e outros olhares”, principalmente algumas peripécias do meu tempo de estudante.

Sei que em 1908 aconteceu o início do ramal ferroviário que ia de Piranguinho a São José do Paraíso, hoje Paraisópolis. Com esse empreendimento, aqui chegaram os engenheiros e os encarregados pela construção da ferrovia. Entre estes estava o topógrafo José Maurício de Lima que aqui fixou residência com a sua esposa Almerinda Valente de Lima, que era oriunda de Aracaty, no Ceará.

Dona Almerinda, por ser uma pessoa comunicativa e atenciosa, em pouco tempo, conquistou a simpatia e a amizade de todos. Convivendo com aqueles que aqui moravam, observou que seus filhos precisavam de uma escola onde pudessem estudar. Tomou a iniciativa e expôs os fatos aos senhores Manoel Theotônio Pereira dos Santos, Nestor Pereira Machado, Otaviano Pereira Machado e José Caetano Ferreira, dos quais obteve pleno apoio para abrir uma escola mista. A partir daí, conforme fiquei sabendo por intermédio dos Senhores Francisco José Ladislau (Chico-Chica), Maurício Gomes da Rocha e Dona Maria Geraldina Carneiro (Dona Lilí), no início de 1909, Dona Almerinda foi a São Caetano da Vargem Grande para se informar sobre os requisitos para se abrir uma escola mista primária com três estágios em Piranguinho e receber recursos do Estado. Os requisitos eram os seguintes: o prédio escolar deverá ser seguro, claro e ventilado, com sala independente para cada estágio, com privadas independentes para meninos e meninas; carteiras duplas escolares conforme o número de alunos, no mínimo setenta inscritos; três quadros negros, um relógio de horas, uma campainha e três talhas de água de beber.

O primeiro dos requisitos foi preenchido pelo Sr. Manoel Teotônio Pereira dos Santos em ceder para a escola o andar superior do seu estabelecimento comercial. O segundo se preencheu pelas contribuições dos fazendeiros da região para compras das carteiras e os demais necessários. O terceiro requisito não foi preenchido, o que muito surpreendeu a Dona Almerinda e os demais empenhados na criação da escola. Aconteceu que havia muito mais crianças na idade escolar em Piranguinho do que o número exigido, mas os pais brancos não quiseram matricular seus filhos para não misturarem com meninos negros, e os negros pelo mesmo motivo não matricularam seus filhos. Diante desse impasse, Dona Almerinda partiu para a zona rural a fim conseguir alunos, e, mesmo assim, o número conseguido não foi o suficiente.

O Sr. Chico-Chica, ao falar desse episodio, comentou que nessa ocasião ele era garoto e morava no Grotão, e que a Dona Almerinda foi a sua casa com o Nestor Machado pedir ao seu pai que matriculasse ele e seu irmão Pirola na escola de Piranguinho, mas que não foram matriculados porque já haviam aprendido a ler e escrever com o professor Euclides Noronha. O Sr. Maurício Gomes da Rocha e a Dona Lili Carneiro me disseram que no início de outubro de 1909 só havia 45 alunos inscritos e com esse número a Escola não seria reconhecida pelo Estado. Daí a Dona Almerinda criou uma caixa escolar e passou a receber contribuições dos comerciantes e dos fazendeiros da região. Dessa maneira conseguiu abrir a Escola no dia 28 de outubro de 1909.

A instalação da Escola Mista de Piranguinho do Município de São Caetano da Vargem Grande deu-se no dia 28 de outubro de 1909, na sala do prédio escolar. Segundo o termo de instalação, estiveram presentes a professora Almerinda, o Inspetor Técnico, o Inspetor Escolar Distrital, líderes locais e 43 dos 45 primeiros alunos inscritos. Eram eles: Benedicto Arantes de Noronha, Lázaro de Noronha Pereira, Maria Cândida Guimarães, Francisca Braga, Benedicto Pereira Braga, Benedicto Rodrigues, Paulo Vicente de Lima, Thereza Bibiano, Joaquim Bibiano, Angelina Bibiano, José Bento Gomes, Thereza de Jesus Gomes, Inácio Bento Gomes, Benedicto Gomes, José Benedicto dos Santos, Benedicta de Jesus Gomes, Sebastião José Fernandes, Antônio José Fernandes, Amélia Pereira de Castro, Maria Pereira de Castro, José Gomes, Antônio José Gomes, Pedro Fabiano, Mercedes Noronha, Francisco Pereira Machado, Antonio Machado, José Machado, Pedro Dias Ferreira, Antonio Quirino, Francisco Pereira da Silva, Pedro Apolinário, Benedicto Pereira, Maria Sandy, Ana Dias, Maria Rosa Solidade, Benedicta dos Santos, Benedicto Ferreira Palma, José Ferreira Palma, Luiz Ferreira da Costa, Benedicta Duarte, Maria Cândida. Faltaram José Claro Gomes e Benedicta Gomes Ferreira. Assinaram o termo a professora Almerinda Valente de Lima, o inspetor Francisco Leite de Araújo, Otaviano Pereira Machado, Manoel Theotônio Pereira dos Santos, José Caetano Ferreira, José Maurício de Lima, José Pestana de Aguiar, Sebastião Theotônio Pereira dos Santos e Nestor Pereira Machado.

Disse-me a Dona Lili Carneiro que a Dona Almerinda não pensava que seria a professora da escola que pretendia criar, mas, devido ao número de alunos e para poupar a caixa escolar, assumiu a primeira cadeira da Escola, colocou a sua empregada Altiria Leonor Bastos para a segunda cadeira, e para a terceira cadeira foi colocada a Amélia Pereira de Castro, que ainda era uma menina, irmã do Nestor Machado.

Depois que Dona Almerinda morreu, lecionaram em seu lugar, até que fosse indicada outra professora, o Nestor Machado, Otaviano Machado e o Sebastião irmão do Manoel Teotônio. Em 1919, a professora Liberalina Rezende Ribeiro, que havia se mudado para cá, assumiu a primeira cadeira da Escola. Fiquei sabendo também, pelo Sr. Elpídio Salomon, que naquela época de 1920 havia muitas professoras recém-formadas aqui na região, mas não havia escola que as aceitasse, pois só eram admitidos professores, embora seus vencimentos fossem muitas vezes maiores do que os das professoras. Revelou também que naquela ocasião o Nestor Machado estava de namoro com uma dessas professoras recém-formadas, que se mudou para cá com o pai, uma irmã e um irmão. Essa professora era a Dona Adélia, que veio a se casar com o Quinha Carneiro (José Carneiro). Depois de um ano, a sua irmã Lucília veio para ser, também, professora da Escola.

Em 1947, conversando com o Sr. Maurício Rocha, fiquei sabendo que ele já tinha sido por duas vezes inspetor escolar daqui de Piranguinho e por cinco anos coletor das contribuições da caixa escolar. Ele sempre se interessou pelo andamento da Escola e podia afirmar que a caixa escolar até 1925 não teve nenhuma despesa com professoras. O Nestor Machado era o que mais contribuía para a caixa escolar, e que por fora da escrita da escola e secretamente ele pagava as professoras e muito bem pagas. Em 1923, os herdeiros do prédio em que a escola funcionava desde a fundação pediram o estabelecimento; daí a Escola foi para uma casa alugada do Sr. Antonio Gomes e custeada pela caixa escolar. Essa casa se localizava onde atualmente se encontram os números 170 a 197 da Avenida Machado Júnior.

Em 1929, a Escola foi transferida para outra casa alugada nas imediações da estação e custeada pela caixa escolar. Sua localização era onde atualmente se encontra a casa de número 425 da Avenida Machado Júnior. Em 1935, ela funcionou gratuitamente no andar térreo do sobrado comercial e residencial da viúva Dona Nicota Gomes. Em 1936, a Escola se transferiu para outra casa próxima e de propriedade do Sr. Antonio Carneiro (Tonico Carneiro.

Quando fiz o primário escolar, entre 1941 e 1945, a Escola era nessa casa e as professoras eram Maria Geraldina Carneiro (Dona Lilí), Maria José Caridade e Maria de Lourdes Dias Ferreira. Os inspetores escolares eram os Senhores Maurício Gomes da Rocha e Adelmo Pereira Guimarães. Em 1941, meus colegas do primeiro ano escolar eram Anézio Constantino da Silva, Eduardo Amaral, João Cândido da Silva, José Ormeu Januário, José Bebiano, Luiz Valeriano, Luiz Soares da Rocha, Benedito João Pedro, João Corrêa dos Santos, Roosevelt Edson Martins, Antonia Marinho, Rosalina Marinho, José Marinho, Gema de Oliveira, Maria Aparecida Mota, Darcy Dias Machado e Edite Gonçalves.

No meu tempo de estudante, as aulas eram das 11h00min ás 15h30min, com meia hora de recreio. Nessa meia hora, jogávamos bete, queimada, brincávamos de pique e nas palhas de arroz da máquina do Quinha Carneiro. Os alunos mais velhos jogavam futebol e nadavam no Ribeirão dos Porcos, próximo do pontilhão da ferrovia. As alunas jogavam berloque, batiam peteca e pulavam corda. As professoras organizavam teatrinhos beneficentes para a caixa escolar e os atores eram os próprios alunos e alunas. Eles eram encenados no salão da desativada máquina de café do Sebastião Machado, no qual os alunos armavam palco com cortinas e bancada de tábuas para a platéia. No terceiro ano, além do currículo normal do primário, a gente tinha ainda aulas básicas de música, canto e encenações teatrais pela professora Maria José Caridade.

Com freqüência fazíamos piqueniques pelas zonas rurais. No dia do piquenique era uma festa para todos nós: reuníamo-nos de manhãzinha em frente à escola, as professoras conferiam o número de alunos e em seguida partíamos para a caminhada. Levávamos merenda, cordas para armarmos balanços nas árvores e um facão para prepararmos o lugar. Dos piqueniques que fizemos, dois deles muito me marcaram: um foi no alto do morro da fazenda do Sr. Evaristo Motta. Estávamos merendando quando, repentinamente, surgiu um touro bravo em nossa direção. As professoras e a meninada fugiram para uma matinha cerrada e espinhosa próxima; eu e os demais alunos subimos nas árvores.

O outro piquenique foi o da pedra da Laje; nessa ocasião eu já estava no terceiro ano escolar e a professora era a Dona Maria José Caridade. Ela nos havia contado a história da famosa pedra e o motivo do Henrique Braz Pereira Gomes ter mandado fazer uma parada de trem naquele lugar. Daí ela nos perguntou se gostaríamos de fazer um piquenique lá; nós respondemos-lhe que sim. Saímos cedo da escola, levamos nossa merenda e fomos a pé pela linha da ferrovia até a parada Henrique Braz. Descemos pela trilha até a pedra; era um dia claro e ensolarado. Achamos o lugar muito bonito e ficamos admirados com a quantidade de pássaros que vimos. De início, para nós, a pedra da Laje era igual às demais, mas ao aproximarmos e subirmos nela vimos que não era tão igual assim. As famosas marcas existiam mesmo e todos nós pusemos o joelho e o pé nelas.

Quando me formei, em novembro de 1946, meus colegas de formatura foram: João Carvalho dos Santos, João Silva (João Grosso), Amélia Gomes Ferreira, Elisa Antunes Duarte, Maria José Dias e Maria Alice Campos. Não conseguiram ser aprovados nos exames finais Antonio Dia Ferreira, Antonio Gomes, Antonio Roberto Correia, Braz Batista, Benedito Primo, Eduardo Amaral, Hilton Pinto de Carvalho, José Olinto Mota, José Ormeu Januário, João Dias Chaves, Luiz Maia da Silva, Nelson Candido da Silva, Ormindo Dias Chaves, Pedro Candido da Silva, Pedro Rosas, Rafael Ferraz, Vitor Tristão dos Santos, Celina Nogueira da Silva, Maria José Leonel, Maria Guedes Candido, Maria José de Souza, Maria da Silva, Núria Antunes da Silva Lemes, Nadir Silva e Terezinha Amaral de Souza. A Escola permaneceu nesse local até 1951, quando foi transferida para o seu próprio prédio, recém-construído pelo então Prefeito Municipal de Brazópolis, Heitor Pereira Machado, filho de Nestor Pereira Machado, um dos colaboradores de Dona Almerinda na fundação em 1909.

Em 1959, completaram-se os 50 anos da fundação. Para comemoração desta data, as professoras Maria José Caridade Carneiro, Maria de Lourdes Dias Ferreira, Maria Geraldina Carneiro e Inês Maria Dias elaboraram um programa constando de Missa Solene, visita ao túmulo de Dona Almerinda, sessão de artes e desfile dos alunos pelas ruas de Piranguinho. Por ocasião das festividades, a Escola contou com a presença do Sr. Paulo Gurgel de Lima, filho de Dona Almerinda. Também compareceram antigas professoras e alunos que haviam passado pela Escola. Tive uma discreta participação na organização desse evento no já conhecido episodio da descoberta do retrato de Dona Almerinda Valente de Lima.

Na realidade, esta festa vinha sendo preparada desde 1958. A primeira decisão foi dar nome à Escola, iniciativa de Dona Maria e Lili, que haviam levado uma velha fotografia em que aparecia a fundadora para o fotógrafo Noronha, de Brazópolis. Com este não dispunha de recursos para ampliá-la, fui procurado pelas duas professoras. Dona Maria me contou sobre a fotografia e me perguntou se eu poderia levá-la a uma firma especializada, em São Paulo, onde sempre ia para contratar os filmes para o meu cinema. Quando fui à sua casa, a fotografia estava ainda em Brazópolis. No dia seguinte, Dona Maria e Dona Lili me entregaram um envelope com a fotografia e recomendações: “não tem perigo de sumir?”. Dois dias depois eu trouxe o quadro com a fotografia já ampliada. Quando Dona Maria, dias mais tarde, me apresentou os planos das comemorações e disse que, além do desfile, pretendiam fazer uma vista ao cemitério, eu sugeri construir um túmulo para Dona Almerinda. Ela alegou que ficava caro e a Escola não poderia pagar. Conversei então com o Miguel Januário e ele concordou em realizar a obra. Quando olhamos pelo portão, vimos que a cova de Dona Almerinda ficava bem em frente, no que poderia ser futuramente uma passarela central. Então o túmulo foi construído levemente afastado. Nas festividades do ano seguinte ele recebeu as devidas bênçãos.

Desde a sua fundação em 1909, a Escola recebeu muitos nomes: Escola Mista Distrital, Escolas Mistas de Piranguinho, Escolas Isoladas, Escolas Combinadas, Escolas Reunidas. Na ocasião do seu cinqüentenário, conforme o planejado, as professoras Maria Geraldina Carneiro, Maria José Caridade Carneiro e Maria de Lourdes Miranda Dias encaminharam um ofício solicitando à Secretaria de Educação de Minas Gerais, que desse o nome à Escola em homenagem devida à fundadora Almerinda Valente de Lima, a fim de se perpetuar na história o reconhecimento dos filhos de Piranguinho à sua benfeitora mui lembrada. A partir do ano de 1962, a Escola passou a ser denominada “Escola Estadual Almerinda Valente de Lima”.

Muitas foram as diretoras e professoras que passaram pela Escola desde a sua fundação; destacaremos aqui as primeiras: Almerinda Valente de Lima, Amélia Pereira de Castro, Altiria Leonor Bastos, Liberalina Rezende Ribeiro, Adélia Nogueira de Sá, Lucília Nogueira de Sá, Maria de Lourdes Miranda Dias, Maria Geraldina Carneiro, Maria José Caridade Carneiro, e tantas outras a partir de 1959. Entre seus antigos inspetores destacamos Francisco Leite de Araújo, Manoel Theotônio Pereira dos Santos, Manoel Gomes da Rocha, Elpídio Salomon, Francisco de Almeida, Maurício Gomes da Rocha e Adelmo Pereira Guimarães. O sucesso da Escola Almerinda Valente de Lima, em sua implantação e consolidação, deu-se também graças ao apoio de cidadãos beneméritos como Theotônio Pereira dos Santos, Nestor Pereira Machado, Otaviano Machado, José Caetano Ferreira, Sebastião Theotônio Pereira dos Santos, Antônio Nogueira de Sá, Sebastião Pereira Machado, Antonio Avelino de Almeida, Francisco de Almeida, Maurício Gomes da Rocha, Adelmo Pereira Guimarães, João Capitulino de Barros e Paulo Carneiro.

Estas memórias referem-se apenas ao período em que Piranguinho foi Distrito de Brazópolis. Muitos piranguinhenses guardam ainda lembranças – saudosas, divertidas ou tristes – de sua passagem por essa Escola centenária. Cada um tem, com certeza, mil histórias para contar e pode colaborar para fazer da festa do centenário um mosaico de recordações que nos deixará a todos orgulhosos. Todos – alunos, professores, funcionários e cidadãos colaboradores – devem se sentir responsáveis pelo êxito desta instituição cujo nome reverencia, com justiça, aquela que foi exemplo de cidadã e professora numa época em as mulheres não gozavam de direitos políticos e tinham sua competência profissional questionada.

Joaquim Mota de Almeida
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Lisandra Angélica Ribeiro

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