
23/02/2007: História de Piranguinho por Joaquim Mota de Almeida
HISTÓRIA DE PIRANGUINHO
Joaquim Mota de Almeida
I – OS PRIMEIROS PASSOS
Piranguinho surgiu com o advento da estrada de ferro entre Itajubá e Porto do Sapucaí, no início dos anos 90 do século XIX. Seu surgimento está ligado à construção de um engenho de serra movido com as águas represadas do Ribeirão dos Porcos, a partir de 1882. O objetivo desse engenho de serra era desdobrar as madeiras contidas nessa região e prepará-las em dormentes para serem utilizados na construção da linha férrea. Nas imediações foram construídos barracões de madeira cobertos com zinco, casas de pau-a-pique cobertas com sapés, que serviam de abrigos aos trabalhadores da ferrovia e aos do engenho; por isso o local passou a ser chamado “Engenho de Serra”.
Essas terras pertenceram a Leocádia de Lourenço, conhecida como “Baronesa” Leocádia de Lourenço (1), que, com a abolição da escravatura, em 13 de maio de 1888, vendera-as ao Coronel Francisco Braz Pereira Gomes (2), importante fazendeiro de São Caetano da Vargem Grande, - hoje Brazópolis – e mandatário político da região. Com a construção de uma estação provisória no local, foi necessário dar-lhe um nome. Entre os tantos nomes sugeridos para a estação, foi escolhido o de Piranguinho. Segundo depoimentos, este nome foi dado devido a abundância de peixes pequenos que existiam nas águas do Ribeirão dos Porcos e na represa do engenho de serra. Piranguinho, na língua Tupi, significaria então peixe pequeno.
Em 1891, o Coronel Francisco Braz Pereira Gomes doou uma quarta dessas terras, situada no alto do espigão – atual Praça Coronel Braz –, para que aí se iniciasse um arraial. Os lotes não seriam vendidos, mas aforados, com a obrigação de se construir casa de morada. Em meados de 1894, reuniram-se na fazenda dos Carneiros alguns senhores influentes da região como o Coronel Francisco Braz Pereira Gomes, Gregório Pereira Motta, Manoel Machado Júnior, Augusto José Dias e Antonio Carneiro. O objetivo da reunião foi elaborar um pedido ao governo do Estado para que a estação ferroviária de Piranguinho se tornasse permanente. No dia 03 de março de 1896, foi inaugurada a estação ferroviária definitiva e a ponte de ferro sobre o Rio Sapucaí. Estiveram presentes pessoas ilustres de São Caetano da Vargem Grande, de São José do Paraíso, de Itajubá, fazendeiros da região e o povo em geral. Os fazendeiros da região eram: Gregório Pereira Motta, Manoel Machado Júnior, Antonio José Carneiro, José Caetano Ferreira, Alferes Luiz Carlos Rennó, Pedro Ferreira da Costa, Evaristo Pereira Motta e Sebastião Medeiros Neves. Nessa ocasião, a linha ferroviária foi liberada para o tráfego de trens somente no percurso da estação de Cruzeiro à estação de Piranguinho. Assim, os trens de cargas e passageiros que vinham de Cruzeiro tinham seus pontos finais na estação de Piranguinho, onde havia um viradouro, e eles retornavam a Cruzeiro.
Com o funcionamento da ferrovia e dos sistemas de Correio e Telégrafo da Estrada de Ferro Sapucay, mais tarde englobada pela Rede Mineira de Viação (R.M.V.) (3), o crescimento e prosperidade de Piranguinho foram notáveis. O arraial tornou-se o centro comercial dos lugarejos e cidades vizinhas, que traziam seus produtos para despachá-los pelos trens e daqui levavam suas mercadorias. Desde 1896, Manoel Teothônio dos Santos administrava no local um armazém de secos e molhados, que também funcionava como agência de correio. Em 1901, foi implantado por José Aniceto Gomes e pelo Coronel Francisco Braz Pereira Gomes um sistema de máquinas movidas a vapor para beneficiamento de café e arroz. Na ocasião, o arraial já contava com vinte e uma casas de alvenaria, um sobrado, quatro barracões de madeira cobertos com zinco para estocagem de mercadorias, cinco alojamentos para tropeiros e vários currais para tropas. Era um privilégio construir e morar próximo à estação, razão pela qual o arraial desenvolveu-se em suas imediações.
O arraial não possuía infra-estrutura para abrigar a quantidade de pessoas que se mudava para trabalhar na ferrovia. Não havia abrigos suficientes, de forma que negros e brancos foram forçados a se abrigarem sob os mesmos tetos. Esse aglomerado de pessoas diferenciadas gerou desavenças. A fim de contê-las, o Coronel Francisco Braz Pereira Gomes trouxe uma de suas criadas, Maximiana da Costa Manso, ex-escrava alfabetizada, comunicativa e conhecedora do linguajar dos ex-escravos (4). Ela fora escrava doméstica na fazenda do Capitão Manoel Pereira Gomes, onde nasceu no ano de 1827. Foi também uma das babás de Francisco Braz Pereira Gomes e, posteriormente, do seu filho, Wenceslau Braz Pereira Gomes. Com sua liderança, impôs respeito a negros e brancos. Em 1901, fez construir no alto do espigão um barraco de pau-a-pique para ser a primeira igreja de Piranguinho, dedicada a São Benedito. O escultor Candinho Siqueira da Cruz esculpiu, em madeira, a primeira imagem para a igreja e a primeira missa foi celebrada pelo Padre João Baptista Alvarenga, pároco da Igreja de São Caetano da Vargem Grande. Maximiana formou também as congregações religiosas de São Benedito e Nossa Senhora Aparecida, e liderou, em 1901, a realização da primeira festa da Libertação e Exaltação à Princesa Isabel, o “Congado”. Em 1906 fez construir, de tijolos e coberta com telhas, uma outra igreja para substituir a que era de pau-a-pique.
II: CRESCE O ARRAIAL
A ferrovia veio beneficiar o escoamento da produção das fazendas e dos produtores rurais da região. Os registros nos talões de despachos da estação de Piranguinho, entre os anos 1898 e 1904, demonstram que a região produzia e exportava uma grande variedade de produtos, tais como, café, milho, arroz, feijão, fubá, polvilho, algodão, queijo, rapadura, galinha, azeite de mamonas e sabão de cinzas. A população inicial, formada por trabalhadores da ferrovia, tropeiros e comerciantes, vindos dos mais diferentes lugares, proporcionou farto dinheiro circulante. Este, por sua vez, atraiu banqueiros de jogos de azares, de baralhos, cartomantes e meretrizes. Como conseqüência, as noitadas no arraial tornaram-se tumultuadas, com brigas, furtos e até mesmo assassinato. Preocupados, os influentes fazendeiros da região, Gregório Pereira Motta e Manoel Machado Junior, solicitaram do Governo Estadual um Destacamento Policial Militar. Em meados de 1904, chegou um Destacamento Militar composto por um cabo e três soldados. O primeiro Destacamento Policial instalou-se numa casa do estilo comercial, situada no alto do espigão, gentilmente cedida por Gregório Pereira Motta. Esta casa ainda permanece na atual Praça Cel. Braz, n0 26.
No dia 14 de janeiro de 1908, teve início a construção do ramal ferroviário entre Piranguinho e São José do Paraíso. A “picaretada” simbólica foi dada exatamente às 10 horas pelo Coronel Francisco Braz Pereira Gomes. Estiveram presentes personalidades importantes da política nacional como Wenceslau Braz Pereira Gomes, Delfim da Costa Ribeiro Moreira e Artur da Silva Bernardes, além de fazendeiros de Piranguinho, de São Caetano da Vargem Grande, de São José do Paraíso e o povo em geral. Discursaram nessa cerimônia Augusto José Dias, Manoel Theotônio Pereira dos Santos e Wenceslau Braz Pereira Gomes. O evento trouxe para a localidade um novo fluxo de engenheiros, topógrafos, encarregados e trabalhadores da ferrovia. Na ocasião, Antônio José Rennó Júnior doou uma extensa faixa de suas terras, margeando a linha do ramal ferroviário, para quem aí quisesse fazer sua casa de morada. Foi daí que se originou o Bairro Canudos.
Não havia escola no arraial. Nesse ano de 1908, Manoel Theotônio Pereira dos Santos contratou José Augusto de Medeiros para lecionar no período da noite numa das salas de sua casa. José Augusto era professor profissional e desde 1878 lecionava de manhã e à tarde nas fazendas dos Neves e do Capote. Deveria ensinar os filhos de Manoel Theotônio e também outros que quisessem e pudessem pagar pelas aulas. Para auxiliá-lo na tarefa, o professor contratou Francisco Leite de Araújo. Assim criou-se o primeiro ensino particular em Piranguinho, que atendia apenas meninos e rapazes. Por isso, Maria Tereza dos Santos, irmã do proprietário, iniciou a lecionar no período diurno para meninas e moças, com a assistência do professor Medeiros. Nesse mesmo ano, uma nova moradora, Almerinda Valente de Lima (5), iniciou em sua casa aulas de bordados, crochês e rendas para meninas, moças e senhoras. Logo depois ampliou para aulas de alfabetização e, em seguida, passou a lecionar para meninos e meninas em sala mista. Almerinda era cearense, de Aracaty, esposa de José Maurício de Lima, topógrafo da construção do ramal ferroviário entre Piranguinho e São José do Paraíso. Pessoa culta e comunicativa, em pouco tempo de residência no arraial, conquistou a simpatia, a admiração e o respeito de todos. Ia até as casas das famílias negras procurando convencer os pais sobre a importância de alfabetizar os filhos. Rompia, assim, os preconceitos vigentes desde a formação do arraial. Foi a primeira mulher a promover reuniões entre comerciante e políticos para debater o bem-estar e o futuro de Piranguinho. Em 1909, tomou a iniciativa e, com o apoio de Manoel Teothônio Pereira dos Santos, Nestor Pereira Machado, Otaviano Pereira Machado e José Caetano Ferreira, fundou a primeira escola primária mista local (6).
Em 1910, foi inaugurado o sistema de abastecimento elétrico e ruas centrais foram iluminadas com energia fornecida pela “Companhia Sul Mineira de Eletricidade” de Itajubá. Também nesse ano inaugurou-se o sistema de distribuição de água encanada no alto do espigão e nas casas das imediações da estação. Ambos os sistemas básicos de infra-estrutura foram doações do Coronel Francisco Braz Pereira Gomes. Em fevereiro do ano seguinte, 1911, Djalma Brazil e Júlio Noronha formaram a primeira Banda Musical com os seguintes componentes: Basílio Pinto, Leonino Gomes Correa, Pedrinho Pedroso, Sebastião Pedroso, Salvador Costa, Benedito Lemes, Bernardo Brandão, Alcides Machado e Antonio Martins Noronha. Também nesse ano, foi construído um coreto ao lado da igreja de São Benedito para as apresentações da banda.
Até 1912, Piranguinho não possuía cemitério e os sepultamentos eram feitos em São Caetano da Vargem Grande ou Itajubá. Muitos eram sepultados em seus próprios terrenos ou em santas cruzes existentes à beira das estradas. Por iniciativa e empenho de Almerinda Valente de Lima, construiu-se o Cemitério Público num terreno de 2.315 metros quadrados doado pelo Coronel Francisco Braz Pereira Gomes. Também por ela foram ditadas as normas de seu funcionamento (7). A instituição serviria “ao sepultamento a quantos falecessem na localidade de Piranguinho e arredores, não havendo qualquer protocolo, além da apresentação do atestado de óbito. Serão sepultados todos que necessitam, sem distinção de credo político, religioso ou de raças. A conservação e zeladoria do cemitério serão mantidas pelos membros da comunidade.” Seus primeiros zeladores foram: Antônio Carneiro, Leonino Gomes Corrêa, Alferes Luiz Carlos Rennó, Nestor Pereira Machado, Antonio Avelino de Almeida, José Carneiro, Inácio Tertuliano Gomes, Antonio de Oliveira Godoy e Adelmo Pereira Guimarães. Posteriormente, em 1936, a administração da Igreja de Santa Isabel, na pessoa do Padre Joaquim de Oliveira Noronha, assumiu a zeladoria do cemitério.
III – O DISTRITO DE PIRANGUINHO
No dia 30 de junho de 1913, Piranguinho foi elevado a Distrito e, em 5 de agosto, deu-se a instalação do Cartório de Paz e Registro Civil. Os primeiros nomeados para os cargos públicos foram: Ursulino Pereira Gomes (Escrivão de Paz), Alferes Cândido Rennó (Juiz de Paz), Januário José Pinto (Oficial de Justiça). No mesmo ano aconteceram os primeiros aforamentos de lotes no terreno do alto do espigão. Embora o terreno estivesse à disposição de todos desde a sua doação no ano de 1891, nenhum branco havia se interessado em construir casa de morada no terreno, onde os negros nele realizavam suas festas e tinham a sua igreja. Os primeiros que aforaram lotes no terreno foram Antonio Pereira Machado e Joaquim Ferreira da Silva. No ano seguinte, 1914, Piranguinho ficou de luto pelos falecimentos de seus dois ilustres benfeitores: Coronel Francisco Braz Pereira Gomes, no dia 25 de fevereiro, e Almerinda Valente de Lima, no dia 31 de julho.
Em 1915, algumas senhoras da localidade iniciaram um movimento para construir uma outra igreja no alto do espigão, dedicada a Santa Isabel. O movimento não foi avante por falta do apoio da maioria dos moradores do Distrito. Mesmo assim, essas senhoras mandaram confeccionar um sino com a inscrição “Santa Isabel – 1.915” e seis candelabros de bronze com as mesmas inscrições. No início de 1918, a epidemia de gripe espanhola que assolava o Brasil, ceifou a vida de muitas pessoas de Piranguinho e da região. A mortalidade era tanta que foi preciso montar um esquema para sepultamento dos mortos. Para evitar a propagação da doença, assim que morria uma pessoa, procurava-se logo enterrá-la sem os tradicionais acompanhamentos fúnebres. Muitas vezes não havia tempo fazer os caixões, então os defuntos eram transportados em bangüê e sepultados em valas comuns.
O projeto da igreja para Santa Isabel não fora esquecido. Em dezembro de 1918, uma comissão liderada por Luiz Alves de Noronha (Totão), dirigiu-se ao Dr. Wenceslau Braz Pereira Gomes, Presidente da República a passeio em Itajubá, com objetivo de solicitar doação de uma imagem de Santa Isabel para a igreja local. Fizeram parte da comissão Benedita Gomes Ferreira (Doca), Cecília Martins do Amaral; Renata Rennó, Marieta Ribeiro de Noronha e Guiomar Gomes Ferreira (Marzinha). A solicitação foi atendida e, em 2 de abril de 1920, chegou a tão desejada imagem. Ante o tamanho e a beleza da mesma, formaram-se duas correntes de opinião: a primeira delas para que a nova santa passasse ser a padroeira de Piranguinho; a segunda corrente não concordava por ser São Benedito o primeiro padroeiro. No dia quatro de julho desse mesmo ano houve a entronização da nova imagem, e Santa Isabel passou a ser a Padroeira de Piranguinho. Após a cerimônia, os devotos de São Benedito, destronado, retiraram da Igreja todos os pertences religiosos das Congregações de São Benedito e de Nossa Senhora Aparecida. Retiraram também a imagem de São Benedito e seu respectivo altar.
Em janeiro de 1921, Piranguinho tinha uma população urbana de aproximadamente 2.800 pessoas, sendo a maioria delas de negros que para cá vieram e constituíram famílias. Em fevereiro, um considerável número de pessoas negras subitamente mudou-se de Piranguinho. Foram transferidos para outras frentes de trabalhos da ferrovia os grandes barracões de madeira e zinco que serviram de abrigo aos trabalhadores braçais da estrada de ferro. Essa maioria negra, além de fomentadora do comércio local, era a grande prestadora de serviços braçais nas cargas e descargas dos vagões da ferrovia, nas máquinas de beneficiamentos de arroz e café, nos armazéns, nos trabalhos domésticos e nas colheitas do café e algodão. De todas as famílias que aqui moravam, somente quatro permaneceram: família Honório, família Pinto de Oliveira, família Bebiano e família Costa Manso. Desfizeram-se as congregações religiosas e extinguiu-se o festejo do Congado O êxodo reduziu a população urbana a 134 pessoas, segundo depoimentos de antigos moradores. Mas não foi somente a evasão dos negros a responsável por essa crise demográfica; chegara ao fim o tempo das transações comerciais feitas por meio de tropas de burros cargueiros com as cidades vizinhas que não eram abastecidas pela ferrovia. Os lugarejos vizinhos equiparam-se com beneficiamento de café e de arroz, antes privilégio local. Conseqüentemente encerraram-se as atividades comerciais dos armazéns “Manoel Theotônio Pereira dos Santos” e “Machado Júnior e Cia. Ltda.”
No início de 1922, reuniu-se o Conselho Deliberativo de Piranguinho composto por Gregório Pereira Motta, Manoel Machado Júnior, Antonio Carneiro, Nestor Pereira Machado e Joaquim Pereira Motta Sobrinho. O objetivo da reunião foi encontrar um meio de reativar o comércio urbano da queda sofrida pela evasão de seus moradores em 1921 e incentivar os moradores rurais a mudar-se para o perímetro urbano do Distrito, a fim de refazer a sua população. O primeiro que se mudou, no ano de 1922, vindo da fazenda do Capote, foi Antônio Avelino de Almeida com sua esposa Marieta Motta de Almeida e seu primeiro filho, José (Zuza). Aqui se estabeleceu no comércio com armazém varejista e passou a prestar seus serviços para a restauração do comércio urbano do Distrito. José Carneiro (Quinha), vindo da fazenda dos Carneiros, foi o segundo e também se estabeleceu no comércio com um armazém de secos e molhados e máquina para beneficiar arroz. O mesmo ocorreu com Adelmo Pereira Guimarães e sua família, dono de uma loja de armarinhos, fecularia e derivados do milho. Em outubro do mesmo ano, Leonino Gomes Corrêa, morador desde 1909, abriu uma loja de ferragens e artigos escolares. Em 1923, muitos moradores rurais da região – dentre eles José Caetano Ferreira (Tutuca), Manoel Gomes da Rocha (Neco Rocha) e Nestor Pereira Machado – passaram a residir no perímetro urbano. Nessa época passaram a chamar Piranguinho de “Novo Piranguinho”(8).
Os católicos que defenderam a nova Padroeira decidiram construir, no alto do espigão, uma igreja para Santa Isabel. Com esse objetivo, formou-se uma comissão composta por Nestor Pereira Machado (Presidente), Joaquim Ferreira da Silva (Vice-presidente), Ursulino Pereira Gomes e Leonino Gomes Corrêa (Secretários), Benedito Caetano da Silva e José Rodrigues Duarte (Procuradores). A pedra fundamental da nova igreja foi implantada no dia 5 de agosto de 1923 por Nestor Pereira Machado. A obra teve início em setembro desse ano, sob a responsabilidade do arquiteto construtor José Garrido, que nomeou Antonio Avelino de Almeida para encarregado da obra. Os recursos financeiros para a edificação da nova igreja, que durou nove anos, foram obtidos mediante promoções e festas religiosas. Em julho de 1923, realizou-se a primeira Festa de Santa Isabel, sendo festeiros Ambrósio Pereira Motta e Isalina Pereira de Castro.
Em 1924 muitos fazendeiros e moradores da região montaram casas ou mudaram-se para Piranguinho. Entre eles estavam Sebastião Pereira Machado e sua família, José Caetano Ferreira e sua família, Antonio José Carneiro e sua família, Joaquim Pereira Motta Sobrinho e sua esposa Isabel Colorado Motta, e muitos outros. O “novo” Piranguinho contava com os seguintes estabelecimentos comerciais: um armazém varejista de Antonio Avelino de Almeida; um armazém de secos e molhados e máquina de beneficiar arroz de José Carneiro (Quinha); uma loja de armarinhos e fecularia de milho de Adelmo Pereira Guimarães; uma loja de ferragens e artigos escolares de Leonino Gomes Correa; uma loja de chapéus e armarinhos de Elias Simão Jorge (Chaduta); um armazém comprador e exportados de café de Nestor Pereira Machado; um sistema de máquinas para o beneficiamento de café de Sebastião Pereira Machado; uma farmácia fototerápica e manipulação de Álvaro Martins de Menezes; uma pensão de Maria Cândida; uma padaria de Rômulo da Silveira; um barzinho na Estação de Maria Paulina Noronha (Neném Paca); um gabinete dentário de José Francisco Pereira (Zequinha Machado); uma mini-indústria de fogos de artifícios de José Daniel da Silva (Danielzinho); uma olaria de tijolos de Ursulino Pereira Gomes. Eram prestadores de serviços profissionais: Valadão Mendes, Bernardo Brandão, Benedito Martins Amaral e Pedro Pinto Filho (pedreiros); Antônio Duarte, Hervásio de Jesus e Sabino de Oliveira (ferreiros); José Cândido (Zequinha Carapina) e Amâncio de Souza (carpinteiros); José Monteiro, Antônio Tárcio, José Rodrigues e Juvenal Silveira (carroceiros); Bento Faria e Antônio da Cruz (curandeiros) Maria Caetano Bebiano, Thereza Bebiano e Benedita Benta (parteiras). Maria Caetana Bebiano foi a parteira que assistiu maior número de parturientes em Piranguinho. Ela exerceu essa atividade por mais de cinqüenta anos, com dedicação e amor, nada cobrando por seu trabalho (9).
Desde 1924, muitos fazendeiros da região, empolgados pela alta cotação do café no mercado internacional e pelos financiamentos bancários, empenharam-se na formação de novos cafezais. Muitas lavouras tradicionais da região foram desativadas, matas foram derrubadas e pastagens foram eliminadas para cederem os lugares aos novos cafezais. Em 1927, registraram-se as maiores produções de café e algodão até então na região. Nesse mesmo ano mudou-se para o Distrito José Bento Gomes (Zé Domiciano) com sua família. Aqui se estabeleceu no comércio com máquinas para o beneficiamento de café. Em 24 de outubro de 1929, porém, a quebra da Bolsa de Valores de Nova York gerou crise no mercado internacional do café, e como o Brasil era um dos maiores exportadores mundiais desse produto, ficou com a sua produção comprometida. Em dezembro de 1930, o Presidente Getúlio Dornelles Vargas, para reduzir a oferta e melhorar os preços, mandou queimar todo café estocado e erradicar cafezais, pagando pequena indenização aos produtores. Os cafeicultores da região de Piranguinho, que se comprometeram com o financiamento bancário oferecido em 1924, ficaram economicamente abalados e tiveram que vender suas propriedades para pagar as dívidas. Muitos trabalhadores e agregados foram dispensados dos seus serviços, e não puderam pagar suas dívidas junto aos armazéns.
IV – EM TEMPOS DE GETÚLIO
Em janeiro de 1931, Sebastião Pereira Machado foi nomeado pelo Presidente da República, para assumir o cargo de Subdelegado de Polícia do Distrito. No dia 25 do mesmo mês, o subdelegado e o Conselho Deliberativo do Distrito baixaram normas proibindo a permanência de menores de 18 anos desacompanhado de seus pais em lugares públicos após as 21 horas, qualquer barulho que perturbasse o sossego público após as 22 horas, andar com faca ou facão na cintura fora da hora do trabalho, andar a cavalo no passo galope nas ruas do Distrito, maltratar aos animais: cavalos à espora, bois a ferrão, cães e gatos. Foi nomeado para o cargo de protetor dos animais Elpídio Salomon, com amplos poderes para autuar os infratores. Sebastião Pereira Machado permaneceu no cargo até 15 de novembro de 1945, quando pediu demissão. Nesse dia, os piranguinhenses prestaram-lhe as homenagens de gratidão pela forma, competência e dedicação com que exerceu o tão árduo cargo.
Em 1932, foi deflagrada em São Paulo a “Revolução Constitucionalista”. As tropas paulistas pretendiam penetrar no Sul de Minas através de São Bento do Sapucaí e Paraisópolis, e, por ser Piranguinho um ponto estratégico, o exército de Itajubá colocou suas tropas dentro de seu perímetro urbano. A ocupação de Piranguinho fez com que os moradores se refugiassem na zona rural. Foram ocupadas duas casas residenciais para confecções de matracas. A matraca era um dispositivo de madeira, com argolas de ferro, que ao ser acionado manualmente através uma manivela, produzia uma série de estalos secos e semelhantes aos estampidos de metralhadoras. Com essas matracas espalhadas e camufladas na mata da divisa do Sul de Minas com São Paulo, a tropa mineira economizou munições e afugentou as tropas paulistas. O exército retirou sua tropa do perímetro urbano de Piranguinho no dia 5 de outubro. Piranguinho retornou à normalidade em meados de novembro.
Em 1934, por iniciativa e regência de Antônio Avelino de Almeida, formou-se pela segunda vez uma banda musical em Piranguinho, a“Lira Piranguinhense”. A corporação era composta pelos seguintes músicos: Antônio Avelino de Almeida, Genuíno Honorato, Zuza de Almeida, Lóca, João Araújo, Eduardo Almeida, Euzébio Teixeira, João Custódio, Hélio Gomes, Expedito Felizardo, João Machado e Jurandir de Almeida. Em 1936, José Carneiro (Quinha) tornou-se proprietário do primeiro rádio-receptor em Piranguinho. Logo, outros tantos passaram a possuir os tais aparelhos. Nessa época, para se ter um rádio-receptor era necessário obter licença expedida pelo correio e pagar uma taxa anual de 2$000 (dois mil réis). No dia 21 de maio desse ano, tomou posse da primeira cadeira das Escolas Mistas do Distrito de Piranguinho a Professora Maria José Caridade. A professora, formada pela Escola Normal de Economia Doméstica de Brazópolis, inseriu nas Escolas Mistas do Distrito as inovações da Escola Nova. Tais inovações incluíam conhecimentos gerais, noções básicas de música, teatro, recitais e poesias. Foi assim que se iniciaram as exibições dos teatrinhos beneficentes da Caixa Escolar, apresentados e dirigidos pelos próprios alunos.
Em 1939, Piranguinho comemorou o seu cinqüentenário. Como parte das comemorações, os irmãos Antonio Avelino de Almeida e Avelino de Almeida formaram um bloco carnavalesco com a participação da moçada piranguinhense. Esse bloco teve o nome “Iaiá Boneca”: Iaiá era o tratamento dado às meninas-moças da sociedade da época e a expressão Boneca significava charmosa e bonita. No carnaval desse ano, o bloco desfilou pelas ruas centrais de Piranguinho, acompanhado pela Banda “Lira Piranguinhense”. Houve também bailes carnavalescos que se realizaram no salão de uma extinta máquina de beneficiar café. Em fevereiro do ano seguinte, ocorreu a maior enchente até então registrada na região. As águas do Rio Sapucaí atingiram doze metros acima do normal. Todas as localidades situadas nas suas margens foram inundadas e muitas delas ficaram submersas. Em Piranguinho, as águas atingiram a plataforma da estação ferroviária e os trilhos ficaram submersos. Pela primeira vez na história local os trens foram interrompidos por enchente. A barragem da usina hidroelétrica da Companhia Sul Mineira de Eletricidade, que abastecia essa e região, rompeu-se e, durante vinte e dois dias, ficou sem gerar energia elétrica.
Em 1942, Antônio Avelino de Almeida formou o primeiro time de futebol do Distrito: “Esporte Piranguinhense”. Até então, os jogos praticados eram as corridas com obstáculos, jogo de bete, voleibol, natação e “maia”. Um terreno margeando a linha férrea entre Piranguinho e Olegário Maciel, cedido pelo proprietário Omar José Mota, tornou-se o primeiro campo de futebol. Como era várzea, ficava inundado com freqüência. Compuseram a primeira diretoria do “Esporte Piranguinhense”: Antonio Avelino de Almeida (fundador e presidente), Avelino de Almeida (vice-presidente) e João Ribeiro Costa, Tetéia (capitão do time). Em 1945, a Diretoria conseguiu um terreno mais próximo do centro e mais apropriado para campo de futebol. Nesse terreno, de propriedade de Sebastião Pereira Machado, o campo de futebol permaneceu a até janeiro de 1952 quando foi desativado por questões políticas.
Em 1943, construiu-se o jardim público, com bancos, iluminação e arvoredo. Até então, os moradores de Piranguinho divertiam-se indo à estação à noite ver os trens de passageiros e depois se reuniam na praça do alto do espigão. Na praça, de terra batida e poeirenta, aconteciam todos os eventos de Piranguinho tais como: apresentações da banda de música; comícios políticos; leilões; festas públicas e outras tantas eventuais atrações. Nela também se faziam as secagens de cereais na ocasião das colheitas. Aí, por iniciativa de Joaquim Pereira Motta Sobrinho e José Mota de Almeida (Zuza), e com a colaboração do povo, foi construído o jardim público. Sua inauguração aconteceu no dia 25 de março de 1943. Os piranguinhenses, agradecidos, fizeram gravar nos bancos centrais do jardim as seguintes inscrições: A gratidão de Piranguinho a Joaquim Pereira Motta Sobrinho & José Mota de Almeida. Na oportunidade da inauguração, o Coronel Francisco Braz Pereira Gomes recebeu as devidas homenagens tendo sua memória perpetuada no nome da praça: “Praça Coronel Braz”.
A Segunda Guerra Mundial, entre os anos 1939 e 1945, foi benéfica para o comércio e a produção rural de Piranguinho. O Governo, por segurança, suprimiu a maioria dos navios que transportavam açúcar do estado de Pernambuco para os estados do sul do Brasil. Essa supressão fez com que o consumo desse produto se tornasse limitado. Para se comprar açúcar, era necessário ter em mãos o cartão racionamento expedido pelo Poder Municipal, que definia a quantidade do produto a que se tinha direito. Na ocasião, existiam em Piranguinho sete produtores de rapadura: Pedrinho Pedroso, Targino Veloso, José Pedro da Silva, Domingues de Souza, Luciano Pedroso, Toninho Cardoso e Manoel do Carmo. Eles tiveram que triplicar a produção para suprir a falta de açúcar. Houve racionamento da farinha de trigo, que passou ser substituída pelo polvilho de mandioca. Também os produtores de polvilho triplicaram a produção assim com os produtores de algodão, cujas produções eram limitadas e consumidas pela fábrica de tecidos “Codorna”, em Itajubá, tiveram de duplicar a sua produção para atender à demanda. Nessa ocasião, a Indústria Matarazo, em São Paulo, dava início à industrialização de óleo comestível de amendoim. Os compradores intermediários incentivaram os produtores rurais de Piranguinho a fazerem lavoura de amendoim. Forneceram as sementes e comprometeram-se a absorver toda a produção. Assim foi que os produtores rurais do Mato Dentro e das Gomeiras fizeram grandes lavouras de amendoim e obtiveram bons lucros. Apesar dessas vantagens, no dia 30 de abril de 1945, a população mobilizou-se numa grandiosa festa comemorativa logo após o rádio ter noticiado que o exército soviético fincara a sua bandeira no alto do Parlamento alemão, o Reichstag, e que Hitler havia se suicidado junto com sua mulher, Eva Braun. A capital alemã estava em ruínas, ocupada pelo Exército da URSS. A guerra, portanto, tinha terminado. Quatro expedicionários da região de Piranguinho participaram dessa guerra e apenas três deles retornaram: Alfredinho Passos, Antonio Renó e Zezinho Leocádio.
Em 1944, a zeladoria do cemitério, através de seu procurador, Adelmo Pereira Guimarães, comprou seiscentos metros quadrados de terreno de Sebastião Pereira Machado e de sua esposa, Benedita Dias Machado. Havia necessidade de ampliar cemitério público e substituir as cercas de arames farpados que o circundava por muros de tijolos. A escritura dessa compra foi lavrada no livro n0 11, folhas 157 do Cartório de Registro Civil de Piranguinho. Com esta ampliação, o cemitério passou a contar com 53 metros de frente por 55 metros de fundo, ou sejam 2.915 metros quadrados cercados com muros de tijolos.
V - OS ANOS DOURADOS
Desde sua fundação em 1909, a Escola Mista do Distrito de Piranguinho vinha funcionando em casas alugadas, gentilmente cedidas ou custeadas pela Caixa Escolar. Em 1951, ela passou a funcionar em prédio próprio. Isso se tornou realidade pelo empenho dos vereadores João Capitulino de Barros e Paulo Carneiro, representantes do Distrito de Piranguinho na Câmara Municipal de Brazópolis. Outro fator que muito contribuiu para a construção do prédio escolar em Piranguinho foi o apoio do Prefeito Municipal daquela cidade, Heitor Pereira Machado, filho de Piranguinho. Nessa ocasião foram também nomeadas as ruas do Distrito de Piranguinho e numeradas as suas casas. Até então eram conhecidas por pontos referenciais, tais como, Rua da Estação, Rua detrás da Estação, Rua de Baixo, Rua da Ponte de Zinco, Rua dos Canudos, Rua do Cemitério, Rua do Canto, Rua do Porto, Rua do Beco e Rua da Linha. Adultos e jovens mobilizaram-se e escolheram os nomes daqueles que no passado trabalharam para o bem comum e para o progresso do Distrito. Assim ficaram definidas: Rua Machado Júnior (Rua da Estação), Rua Manoel Teothônio Pereira dos Santos (Rua detrás da Estação), Rua Gregório Pereira Motta (Rua de Baixo), Rua Alferes Rennó (Rua dos Canudos), Rua Manoel Gomes da Rocha ou “Neco Rocha” (Rua do Canto), Rua José Caetano Ferreira ou “Tutuca” (Rua do Porto), Rua Ursulino Gomes (Rua do Beco), Rua Leonino Gomes Corrêa (Rua da Linha).
No mês de agosto de 1954, muitos piranguinhenses assistiram, com pesar, a demolição de muitas casas tradicionais que existiam nas imediações da estação ferroviária desde o início de Piranguinho. Essas casas retratavam estilos de época, mas foram demolidas para dar passagem à rodovia entre Itajubá e Poços de Caldas. O curso da rodovia foi alterado posteriormente e, desnecessariamente, Piranguinho perdeu esses patrimônios históricos. Nos anos seguintes, o Distrito procurou acompanhar a modernização dos anos JK. Em 15 de março de 1955, foi inaugurado o “Cine-teatro Piranguinho”, localizado à Praça Coronel Braz, 40, um empreendimento de Joaquim Mota de Almeida que fez construir o prédio devidamente equipado. Em 1957, foi inaugurada a Casa Paroquial, obra idealizada e realizada pelo Padre Lúcio Remuzart Renó, com a colaboração financeira dos católicos locais. Em 1958, Joaquim Mota de Almeida apresentou o primeiro receptor de televisão. Nessa ocasião havia somente duas emissoras de televisão: TV Tupi de São Paulo e TV Rio do Rio de Janeiro. Para se captar o sinal da TV Tupi de São Paulo, foi necessária a implantação de antenas especiais direcionadas para os repetidores da “Assumitel” implantados no pico da Serra dos Dias.
Em 28 de outubro de 1959, celebrou-se o cinqüentenário da Escola Mista do Distrito de Piranguinho. Para as comemorações, as professoras da Escola, Maria José Caridade Carneiro, Maria de Lourdes Dias Ferreira, Maria Geraldina Carneiro e Inês Maria Dias elaboraram um programa constando de Missa Solene, visita ao túmulo de Dona Almerinda, sessão de arte e desfile dos alunos pelas ruas de Piranguinho. Nas festividades, a escola contou com a presença do Sr. Paulo Gurgel de Lima, filho de Dona Almerinda, e de antigas professoras da Escola. Aproveitando a ocasião, as professoras da escola solicitaram à Secretaria de Educação de Minas Gerais que Escola recebesse o nome da fundadora Almerinda Valente de Lima, a fim de se perpetuar na história o reconhecimento dos filhos de Piranguinho à sua benfeitora. Desde a sua fundação em 1909, ela recebera diversos nomes: Escolas Mistas do Distrito de Piranguinho; Escolas Isoladas; Escolas Combinadas; Escolas Mistas Distritais e Escolas Reunidas. A partir de 1962, ela passou a ser denominada “Escola Estadual Almerinda Valente de Lima”(10).
Nos últimos anos da década de cinqüenta, registraram-se consideráveis quedas no comércio e nas lavouras da região. O fator predominante dessa crise foi a determinação do Governo Federal de unificar o valor do salário mínimo rural ao valor mínimo dos grandes centros industriais. Até então, os valores dos salários mínimos eram regionais e proporcionais a cada região do país. Em 1959, os produtores rurais não puderam pagar aos seus trabalhadores braçais o valor do salário mínimo determinado pelo Governo. Assim, muitos desativaram suas lavouras e outros tantos, na tentativa de continuar produzindo, propuseram aos trabalhadores braçais parcerias nas lavouras. A maioria desses braçais não aceitou a proposta e preferiu as indenizações, mudando-se para os centros industriais. Não havendo produção e nem mesmo trabalho rural, o comércio urbano ficou economicamente abalado e muitos de seus estabelecimentos comerciais encerraram suas atividades. Até a farmácia, única existente na localidade, transferiu-se para Itajubá.
VI - A EMANCIPAÇÃO
Em 1961, a emancipação política tornou-se o principal objetivo dos piranguinhenses. Nessa ocasião, o Distrito era representado na Câmara Municipal de Brazópolis pelos vereadores José Onofre Ribeiro, Sebastião Luiz dos Santos e Hilza Dias de Carvalho. Aproveitando-se dessa representatividade, os líderes políticos locais, Francisco Dias Ferreira Neto, Antônio Avelino de Almeida, Francisco de Almeida, Joaquim Pereira Mota Sobrinho, Adelmo Pereira Guimarães, Wenceslau Vergueiro, Francisco José Ladislau e Manoel Dias Machado, organizaram um abaixo-assinado para coletar assinaturas de um número mínimo necessário de habitantes para se obter a emancipação política. O abaixo-assinado foi conduzido à Câmara Municipal de Brazópolis em mãos representantes dos interesses piranguinhenses. A oposição dos demais vereadores era intensa, mas os debates avançaram e as argumentações persistentes pró-emancipação foram convincentes. Na sessão do dia 30 de dezembro de 1962, às 20:15, foi votada e consolidada a emancipação política de Piranguinho sob a Lei n0 2.764 de 30|12|1962, publicada no jornal “Minas Gerais” no dia 31|12|1962 (11). Piranguinho contava, então, com 73 anos de existência. Em janeiro de 1963, foi nomeado o Sr. Francisco Dias Ferreira Neto para o cargo de Intendente do novo Município de Piranguinho.
O recém-emancipado Município, com 132 quilômetros quadrados, possuía um Distrito, Olegário Maciel, e os seguintes Bairros: Grotão, Brejão, Mato Dentro, Gomeiras, Neves, Açudinho, Mangueiro, Santa Bárbara, Capote, Mato Dentro de Baixo, Bom Retiro, Ribeirão Vermelho, Pinhal Redondo, Couto, Esmeril, Serrinha e Campinho. O Município contava, então, com 5550 habitantes. Sua instalação deu-se no dia 10 de março de 1963, presidida por Dr. André Rodrigues Sarmento, MM. Juiz de Direito de Brazópolis. A solenidade realizou-se na Casa Paroquial, na presença de autoridades civis, militares e o povo em geral.
No dia 15 de abril de 1963, iniciaram-se, no salão do desativado cine-teatro, as reuniões para definição dos primeiros candidatos a prefeito do novo município. Geraldo Felix da Motta, ex-prefeito de Brazópolis, era o candidato natural nas eleições municipais marcadas para o dia 30 de junho. Depois de várias reuniões, chegou-se a um consenso de que o outro candidato a Prefeito seria Wenceslau Vergueiro. Acordos políticos foram realizados e se formaram as seguintes chapas: candidatos á Prefeito, Geraldo Felix da Motta e Wenceslau Vergueiro; candidatos a Vice-prefeito, Manoel Dias Machado e Francisco José Ladislau, respectivamente. Geraldo Felix da Motta, com experiência de administração pública e influente chefe político, patrocinou os meios para a formação de novos eleitores e bem como as transferências dos muitos títulos de piranguinhenses que residiam e votavam noutras localidades. Assim foi que se conseguiu triplicar o número de eleitores de Piranguinho para a sua primeira eleição municipal.
No dia 1º de setembro, tomaram posse os eleitos, Geraldo Felix da Motta e Manoel Dias Machado. Os vereadores empossados foram Jandir de Almeida, José Caetano Ferreira, Sebastião Luiz dos Santos, José Fernandes da Rosa, Adolfo Pereira de Almeida, José Onofre Ribeiro, Elcio Ribeiro Motta, José Dias Ferreira e Elpídio Felix Barbosa. A primeira Prefeitura Municipal foi instalada num prédio particular situado à Praça Cel. Braz, n0 26, cedido pelo seu proprietário Antonio Avelino de Almeida. Seus primeiros funcionários da foram: Antônio Avelino de Almeida (Chefe do Serviço da Fazenda); João José dos Reis (Porteiro Contínuo); Déia Gomes Veloso (Auxiliar da Tesouraria); José Jair Ribeiro (Fiscal Geral); Harley de Almeida (Secretário); Carlos Raimundo da Costa (Fiscal por Olegário Maciel) (12).
Notas
1. Leocádia de Lourenço: o que sabemos a seu respeito foi passado de boca em boca. Os arquivos de seus feitos, juntamente com outros tantos documentos históricos, foram queimados pelo incêndio ocorrido no Fórum de Itajubá. Sabe-se nasceu na década de 1840, na fazenda de seu pai, Augusto Caetano de Lourenço, do qual originou o Bairro Lourenço Velho, no município de Itajubá. Sabe-se também que era proprietária de vasta quantidade de terras naquela região e que morava em sua fazenda dos Mourões, no município de Itajubá. Era íntima amiga das famílias Pereira dos Santos e Braz Pereira Gomes. Em 1901 fez construir uma ampla e luxuosa casa para sua residência na praça central de Itajubá. O seu círculo de amizades ter-lhe-ia atribuído o apelido de Baronesa devido ao seu porte elegante, fino e cortês. Faleceu no início do ano de 1905, em Itajubá. Era solteira e não deixou familiares. Seu sepultamento se deu no cemitério daquela Cidade.
2. Coronel Francisco Braz Pereira Gomes, Patrono de Piranguinho, nasceu em 28 de julho de 1.840, na fazenda de seu pai, Capitão Manoel Pereira Gomes, em Vargem Grande (atual Brazópolis). Faleceu no dia 26 de fevereiro de 1.914 em Vila Braz (Brazópolis). Deixou os filhos: Henrique Braz, Wenceslau Braz, Artur Braz, José Braz, Amando Braz, Júlia Gomes Rennó, Julita Braz Fonseca e Julieta Braz Pereira de Oliveira Castro. Deixou também noras, genros e netos. Seu sepultamento se deu no cemitério de Brazópolis.
3. A Estrada de Ferro Sapucahy, depois denominada Companhia Viação Férrea Sapucahy, foi organizada para explorar diversas concessões de ferrovias feitas pelo Governo Mineiro e outras pelo governo do Rio de Janeiro, inclusive vias que estavam em tráfego na época, como a saída para o mar através do porto de Angra dos Reis. A concessão original data de setembro de 1881, de acordo com a lei provincial 2788. No final do século XIX, a E.F. Sapucahy era uma empresa de um porte considerado grande para a época, uma vez que suas linhas atingiram 3 estados (São Paulo, Minas e Rio) e mantinha ainda uma companhia de navegação a vapor no rio Sapucaí. Minas Gerais foi uma das poucas exceções no planejamento ferroviário, pois conseguiu articular o transporte de mercadorias tanto por via férrea, bem como por via fluvial. No total, a extensão dos seus trilhos no território mineiro atingia cerca de 370 km.Em 1899 a E.F. Sapucahy entrou em liquidação forçada, com altas dívidas e altos custos de operação de sua rede, a companhia não teve mais condições de rolar sua dívida, principalmente com o governo de Minas. Após a liquidação a empresa foi reorganizada com o nome de Companhia Férrea Vale do Sapucahy, com novos empréstimos e garantias do governo de Minas Gerais. Em 1910, após o acúmulo de prejuízos, a Viação Férrea Vale do Sapucahy foi encampada pelo governo mineiro, e, juntamente com outras, passou a constituir a Rede Sul Mineira. Em 1931, foi constituída a Rede Mineira de Viação, englobando, além da Sapucahy, as seguintes estradas de ferro deste Estado. Estrada de Ferro Oeste de Minas; Estrada de Ferro Minas ao Rio; Estrada de Ferro Muzambinho; Estrada de Ferro Trespontana; Estrada de Ferro Machadense; Estrada de Ferro São Gonçalo; Estrada de Ferro Paracatu. Com a RMV continua a política de crescer e encampar, onde empresas rentáveis absorvem empresas deficitárias à custa do dinheiro público. Com a Rede Ferroviária Federal, não seria diferente, onde praticamente todas as ferrovias do Brasil foram encampadas em uma grande rede, no caso de Itajubá o ramal foi incorporado em 1971, os trens de passageiros deixaram de circular no final dos anos 1970 e os trilhos foram retirados em toda a região do ramal de Itajubá no início dos anos 1990.
4. Maximiana da Costa Manso tinha 74 anos de idade quando veio para Piranguinho em 1901. Foi escrava doméstica na fazenda do Capitão Manoel Pereira Gomes, em Vargem Grande, onde aprendeu a ler e escrever. Foi uma das babás de Francisco Braz Pereira Gomes (filho do seu senhorio Capitão Manoel Pereira Gomes); posteriormente foi também uma das babás de Wenceslau Braz Pereira Gomes, filho de Francisco Braz Pereira Gomes. Libertada da escravatura pela Lei Áurea em 1888, permaneceu como doméstica na fazenda onde foi criada. Em 1901, Francisco Braz Pereira Gomes determinou que ela viesse para Piranguinho a fim de conter os desentendimentos preconceituosos entre brancos e negros ex-escravos que trabalhavam no engenho de serra e na construção da ferrovia. Faleceu em abril de 1939, com 112 anos de idade, e foi sepultada no cemitério local.
5. Almerinda Valente de Lima nasceu em 9 de setembro de 1876, em Aracaty, estado do Ceará. Filha de Joaquim Gurgel do Amaral Valente e casada com José Maurício de Lima Filho, chegou em 1908 acompanhando seu esposo que era um dos topógrafos da construção do ramal ferroviário entre Piranguinho e São José do Paraíso. Prestou relevantes serviços á comunidade, entre eles a fundação da primeira escola primária do Distrito e a instituição do Cemitério Público em 1912. Morreu em 31 de julho de 1914, deixando esposo e os filhos Paulo, Hilmar, Maria e Yzalda. Seu sepultamento deu-se no Cemitério Público de Piranguinho.
6. Termo de instalação da Escola Mista de Piranguinho, do Município de São Caetano da Vargem Grande.
“No dia 28 de outubro de 1.909, na sala do prédio escolar, presentes a professora da cadeira, o Inspetor Técnico, o Inspetor Escolar Distrital, diversas pessoas gradas e os alunos abaixo nomeados. Procedeu-se a instalação solene desta escola dirigindo o Inspetor Técnico, conselhos aos alunos, e entoando estes diversos hinos escolares, do que se lavrou este termo, assinado pela professora, autoridades escolares, cidadãos presentes e diversos alunos. Estiveram presentes os seguintes alunos: Benedicto Arantes de Noronha, Lázaro de Noronha Pereira, Maria Cândida Guimarães, Francisca Braga, Benedicto Pereira Braga, Benedicto Rodrigues, Paulo Vicente de Lima, Thereza Bibiano, Joaquim Bibiano, Angelina Bibiano, José Bento Gomes, Thereza de Jesus Gomes, Inácio Bento Gomes, Benedicto Gomes, José Benedicto dos Santos, Benedicta de Jesus Gomes, Sebastião José Fernandes, Antônio José Fernandes, Amélia Pereira de Castro, Maria Pereira de Castro, José Gomes, Antônio José Gomes, Pedro Fabiano, Mercêdes Noronha, Francisco Pereira Machado, Antonio Machado, José Machado, Pedro Dias Ferreira, Antonio Quirino, Francisco Pereira da Silva, Pedro Apolinário, Benedicto Pereira, Maria Sandy, Ana Dias, Maria Rosa Solidade, Benedicta dos Santos, Benedicto Ferreira Palma, José Ferreira Palma, Luiz Ferreira da Costa, Benedicta Duarte, Maria Cândida. Total: 43 alunos. Faltaram José Claro Gomes e Benedicta Gomes Ferreira. Nada mais houve, tendo sido lavrado este termo que vai assinado pelas pessoas referidas.
Piranguinho, 28 de outubro de 1.909.”
Professora: Almerinda Valente de Lima
Inspetor: Francisco Leite de Araújo
Otaviano Pereira Machado
Manoel Theotonio Pereira dos Santos
José Caetano Ferreira
José Mauricio de Lima
José Pestana de Aguiar
Sebastião Theotonio Pereira dos Santos
Nestor Pereira Machado.
7. Normas de funcionamento do cemitério:
“A instituição servirá ao sepultamento a quantos falecerem na localidade de Piranguinho e arredores, não havendo qualquer protocolo, além da apresentação do atestado de óbito.
Serão sepultados todos que necessitam, sem distinção de credo político, religioso ou de raças.
A conservação e zeladoria do Cemitério serão mantidas pelos membros da comunidade.”
8. Na reunião do Conselho Deliberativo, o Conselheiro Joaquim Pereira Motta Sobrinho propôs-se intermediar, junto ao seu genro Antônio Avelino de Almeida, experiente de comércio para que se estabelecesse com armazém varejista em Piranguinho e procurasse restabelecer o comércio urbano. Assim fizeram Antonio Avelino de Almeida e sua esposa Marieta Motta de Almeida, que constituíram família de nove filhos: José (Zuza), Jurandir, Juracy, Maria, Nuria, Jair, Joaquim e Jandir. José Carneiro (Quinha) casou-se com Adélia Nogueira de Sá e constituíram família de onze filhos: Isaltino, Isabel, Célio, Mariana, Antônio, José, Marilia, Aluízio, Laércio, Renato e Maristela. Adelmo Pereira Guimarães e sua esposa Ana Campos Guimarães vieram de Maria da Fé e constituíram família de dez filhos: Elza, Nelson, Maria, Aracy, Elzira, José, Nilton, Ercy, Rose e Rosali.
9. Maria Caetana Bebiano faleceu no inicio de 1950, deixando os filhos Tereza, Angelina, Benedita, Francisca, Joaquim, Ernesto e Sebastião Bebiano. Seu sepultamento se deu no cemitério local.
10. Muitas foram as diretoras e professoras que passaram pela Escola desde a sua fundação. As primeiras professoras foram Almerinda Valente de Lima, Amélia Pereira de Castro, Altiria Leonor Bastos, Liberalina Rezende Ribeiro, Adélia Nogueira de Sá, Lucília Nogueira de Sá, Maria de Lourdes Miranda Dias, Maria José Caridade Carneiro, Darcy Dias Machado, Inês Maria Dias e tantas outras a partir de 1.959. Entre seus inspetores destacaram-se Francisco Leite de Araújo, Manoel Theotônio Pereira dos Santos, Manoel Gomes da Rocha, Elpídio Salomon, Francisco de Almeida, Maurício Gomes da Rocha e Adelmo Pereira Guimarães. Entre seus benfeitores estiveram Antônio Nogueira de Sá, Nestor Pereira Machado, Sebastião Pereira Machado, Antonio Avelino de Almeida, Francisco de Almeida, Maurício Gomes da Rocha, Adelmo Pereira Guimarães, João Capitulino de Barros e Paulo Carneiro.
11. Reprodução do primeiro Decreto expedido pela Prefeitura Municipal de Piranguinho:
Decreto n0 1|63
Admissão de Funcionários
O Intendente do Município, usando da atribuição que lhe confere o artigo 11 inciso XX, da Lei Estadual n0 2.764 de dezembro de 1.962, resolve:
Art. 10 Admitir na Prefeitura Municipal de Piranguinho os seguintes funcionários: José Adolfo Cintra, para o cargo de Secretário Contador, com vencimento mensal de C$17.000,00 (dezessete mil cruzeiros); Elzira Guimarães, para o cargo de Chefe do serviço da Fazenda, com vencimento mensal de C$17.000,00 (dezessete mil cruzeiros); Hernani Carlos Pereira, para o cargo de auxiliar da Secretaria, com vencimento mensal de C$15.000,00 (quinze mil cruzeiros).
Art. 20 Revogam-se as disposições em contrario, entrando este decreto em vigor na data de sua publicação.
Mando, portanto, a todos quanto os conhecimentos e execução deste decreto pertencer,
que o cumpram e façam cumprir tão inteiramente, como nele se contém.
Prefeitura Municipal de Piranguinho, 8 de março de 1.963.
Intendente Municipal: Francisco Dias Ferreira Neto
12. Dados de Piranguinho emancipado:
População do Município: 5.550 habitantes.
Localização: Sul de Minas Gerais
Altitude: 836 metros.
Latitud:, 220 24-05.
Longitude: 450 32-00.
Localizador mundial: GG. 77-F0
Trajetória histórica:
Engenho de Serra: de 1882 a 1889;
Arraial: de 1889 a 1913;
Distrito: de 1913 a 1963;
Município: a partir do ano de 1963.
Fontes Escritas
• Acervo particular de fotografias de José Mota de Almeida (Zuza).
• Arquivo da Casa Paroquial de Brazópolis, 1920.
• Arquivo do Cartório de Registro de Brazópolis, 1901 a 1940.
• Arquivo do Cartório de Registro Civil de Piranguinho, 1913 a 1960.
• Arquivo Morto da Estação Ferroviária de Piranguinho, 1898 a 1904.
• Arquivo Morto da Sub-Delegacia de Polícia de Piranguinho, 1905 a 1945.
• Livros Borradores da Fazenda do Capote, 1875 a 1.930.
• Livros Borradores da firma “Leonino Gomes Correa”.
• Livros Borradores e Contábeis da firma “Machado Júnior & Cia”, 1907 a 1916.
• Livros Borradores do Armazém Manoel Theotônio P. dos Santos, 1898/ 1915.
• Livro de Ata da Instalação da Escola Mista de Piranguinho, 1909.
• Livro Tombo da Igreja de Santa Isabel, Piranguinho.
Fontes Orais
• Joaquim Pereira Motta Sobrinho
• Isabel Colorado Motta
• Luiz Ferreira
• José Aniceto Gomes
• Antonio Avelino de Almeida
• Marieta Mota de Almeida
• José Mota de Almeida (Zuza)
• Antonio José Carneiro
• Heitor Pereira Machado
• Francisco José Ladislau
• Sebastião Pereira Machado
• Adelmo Pereira Gimarães
• Francisco de Almeida
• Guiomar Gomes Ferreira (Marzinha)
• José Pinto de Oliveira (Barão)
• José Carneiro (Quinha)
• Dirceu Gomes da Rocha
• Maria José Caridade Carneiro
• Anna de Paiva Arantes
• Maria José Gomes.