
23/02/2007: Piranguinho: apontamentos de Joaquim Mota de Almeida
APONTAMENTOS SOBRE A HISTÓRIA LOCAL
1. ANTES DA FUNDAÇÃO: O IR E VIR DAS MERCADORIAS
Os meios de transporte da época eram cavalos, carroças, carros de bois, tropas de burros e barcos através do rio Sapucaí. Parte do comércio era realizada através dos barcos chamados mascates. Esses barcos faziam duas vezes por semana o percurso pelo rio Sapucaí entre Itajubá e Porto do Sapucaí. Eles tinham cobertura de lonas e eram movidos a remos e varejões. Nesses barcos, os moradores beira-rio podiam comprar artigos que não eram produzidos nos meios rurais, tais como: fósforo, sal, querosene, agulhas de costura, aviamentos, cortes de tecidos, chapéus, sapatos, adornos, artigos religiosos, ferramentas agrícolas, de carpinteiro, pregos, etc. Também os produtores rurais faziam trocas de seus produtos pelos artigos desses barcos mascates. Os produtos rurais da região mais comercializados eram: queijos de leite de vaca e de cabra, farinhas de milho e de mandioca, rapadura, açúcar mascavo, mel de abelhas, colorau, fava, azeite de mamona e sabão de cinzas.
Os barcos mascates tinham portos determinados na região. Um deles localizava-se próximo da ponte da ferrovia e se chamava Porto dos Carneiros; outro se localizava na curva grande do rio e chamava-se Porto do Pinga-pinga. Esse nome originou-se das inúmeras pequenas trocas de mercadorias que faziam os moradores da região com esses barcos mascates. Outro porto encontrava-se nas terras da fazenda do Capote e se chamava Porto do Capote; o último localizava-se nas terras da fazenda de Evaristo Pereira Motta e se chamava Porto de Santa Bárbara. Desconhece-se a época em que os barcos mascates iniciaram o percurso pelo rio Sapucaí; presume-se que foi por volta de 1816, mas se sabe que finalizaram em 1911.
Os produtos rurais com maiores portes tais como café, arroz, rapadura, polvilho, carne de porco e toucinho salgado, algodão e lenhas eram transportados para os centros consumidores através de tropas de burros cargueiros e carros de bois.
2. A FAZENDA DO GREGÓRIO: VIDA E CULTURA
Existiam sete fazendas produtoras na região: fazenda do Capote; fazenda dos Neves; fazenda dos Rennós, fazenda dos Carneiros, fazenda Tutuca, fazenda Mato Dentro e fazenda Santa Bárbara. Todas eram produtoras, auto-suficientes e cultivavam os mesmos costumes e tradição. Destacarei aqui a fazenda do Capote, cujo fazendeiro era Gregório Pereira Motta, do qual sou um dos bisnetos e tive o privilégio de ser o possuidor dos livros de registros gerais da fazenda.
Gregório Pereira Motta era natural de Pedra Branca, e filho mais velho de Manoel Marcelino Motta. Casou-se em 1875 com Daria Cândida Cunha Motta, mudou-se para a fazenda do Capote nesse mesmo ano, onde permaneceu e constituiu família de dez filhos: Joaquim, Manoel, José, Luiz, Cornélio, Ildefonso, Amélia, Ana, Francisca e Maria do Carmo. A casa-sede dessa fazenda de 1.430 alqueires de terra tinha doze quartos, uma sala de leitura com biblioteca, uma ampla sala de visitas, uma vasta sala refeitório e uma cozinha. Em seu espaçoso porão funcionava uma escolinha para a criançada local. A iluminação era feita mediante candelabros, candeias de azeite de mamona e velas de sebo. No ano em que se mudou para essa fazenda, Gregório Pereira Motta construiu nas imediações da casa sede uma capela para a santa de sua devoção, Nossa Senhora do Carmo.
A fazenda era equipada com moinho e monjolo movidos a água para os beneficiamentos de milho, arroz e café. Era também equipada com engenho para a produção de rapadura e açúcar mascavo. As lavouras básicas eram de milho, arroz, feijão, mandioca, café, algodão e cana. Criavam-se porcos, vacas, cabras, ovelhas, cavalos, burros e galinhas. A fazenda possuía quarenta e cinco casas para agregados que em média eram 230 pessoas. Entre os agregados, estavam os profissionais qualificados para cuidar da manutenção da fazenda e zelar da saúde de seus moradores: carpinteiro, ferreiro, pedreiro, curandeiro e parteira.
As fazendas recebiam duas vezes por mês a visita de um curador de dentes. Esses curadores de dentes eram também conhecidos por boticário e tira-dentes. Eles visitavam os meios rurais a cavalo, puxando um burro cargueiro com os apetrechos dentários também chamados de Equipamento Dentário de Campanha. O tratamento dos dentes resumia-se em pequenas obturações ou extrações. Não havia anestesia injetável nessa época e para que não sentisse dor ao extrair o dente, duas horas antes da extração o paciente tomava uma boa talagada de chá composto de erva cidreira, camomila e folhas de laranjeira. Meia hora antes da extração, ele enchia a boca com um chá composto com estramônio, cravo da índia e vinagre, que não se podia ser engolido, mas mantido na boca o maior tempo possível. Tratava-se de um eficiente anestésico. Os curadores de dentes eram também protéticos e faziam dentaduras para seus pacientes.
O trabalho diário na fazenda iniciava-se com o nascer do sol e terminava aproximadamente às três horas da tarde. Os agregados tinham suas próprias lavouras nas terras da fazenda para as quais eles dedicavam esse período da tarde. A esposa do fazendeiro, Daria Cândida Cunha Motta, era pianista e todas as tardinhas, após o jantar, tocava piano. Muitos dos agregados com suas famílias reuniam-se na varanda da casa sede para ouvi-la tocar. Alguns dos agregados sabiam tocar viola, sanfona e cantar; em muitas oportunidades eles se juntavam ao piano de Dona Daria para tocar.
Periodicamente passavam pela fazenda vendedores de livros, partituras musicais, relógios e jóias. Esses vendedores eram também contadores de historias e causos. Eram letrados, comunicativos e possuíam boa dicção. Muitos deles ficavam na fazenda por uma temporada remunerada. Encenavam suas histórias num palco improvisado num espaço que normalmente era o terreiro de secagem do café, grande o suficiente para abrigar a todos da fazenda. Em suas encenações contavam vários causos e um capítulo de uma história que levava aproximadamente quinze dias. Também contavam histórias para a criançada da fazenda na hora da escola.
Tradicionalmente a fazenda promovia três festas no ano: Natal, dia de Nossa Senhora do Carmo e o aniversário do fazendeiro. O Natal era comemorado com a reza de um rosário na capela de Nossa Senhora do Carmo e, depois, com o almoço servido para todos os presentes. O dia consagrado a Nossa Senhora do Carmo era uma grande festa. Os preparativos iniciavam-se com uma semana de antecedência; eram feitos variedades de doces, quitandas e cartuchos enfeitados. Na manhã do dia esperado eram preparados os assados de frangos, leitoas, patos e cabritos. A festa iniciava-se com missa celebrada às nove horas, após a qual ocorria o leilão de prendas, assados e cartuchos com doces, que se realizava num coreto ao lado da capela, todo enfeitado com bandeirolas coloridas e ao som da “Lira de Pedra Branca”. Ao meio dia era servido o almoço na casa-sede da fazenda para os componentes da banda, o padre e o povo em geral. Às três horas da tarde realizava-se a procissão com os fiéis carregando o andor de Nossa Senhora do Carmo pelos caminhos da fazenda, encerrando-se com a bênção do padre. A festa encerrava-se à noite com um baile realizado na casa sede da fazenda ao som da banda.
As comemorações de aniversário do fazendeiro iniciavam-se com a reza de um terço na capela. Às onze horas, era servido o almoço acompanhado com assados, vinhos e gasosas para todos da fazenda e fazendeiros convidados da região. O encerramento das comemorações dava-se à noite com um baile ao som da sempre presente banda “Lira de Pedra Branca”. Uma vez por ano fazia-se romaria à Aparecida do Norte. O fazendeiro, seus familiares e muitos dos agregados saíam de madrugada, a cavalo, da fazenda do Capote e só paravam para o almoço no inicio da serra da Mantiqueira. Pernoitavam no abrigo no alto da Serra e, de madrugada, continuavam até a hospedaria amarela nas proximidades de Lorena onde pernoitavam para, no dia seguinte, chegar em Aparecida do Norte. A romaria lá ficava por quatro dias e fazia o mesmo percurso de volta.
A fazenda também promovia torneios esportivos entre a sua rapaziada e rapaziada das fazendas vizinhas. Esses torneios realizavam-se logo após as colheitas do algodão e do café. As modalidades esportivas eram jogos de maia, jogos de queimadas, corridas com obstáculos e montarias em cavalos e bois. Cada vencedor era premiado com um bonito cavalo para montaria, ou uma vaca leiteira. As meninas e moças da fazenda tinham suas diversões diferenciadas, bater peteca, pular cordas e jogar bilboquê. Era orgulho para a moça saber bordar, costurar, cozinhar e conhecer plantas medicinais e suas indicações terapêuticas.
Nos dias de carnaval, a rapaziada das fazendas reunia-se para folia. Como as mulheres dessa época não participavam dos folguedos carnavalescos, a maioria dos rapazes vestia-se de mulher e formava um bloco que ia de fazenda em fazenda, cantando, batendo latas e atirando polvilho e ovos perfumados nas pessoas que encontrava. O ovo perfumado era feito da seguinte maneira: faziam-se dois pequenos furos no ovo de galinha, com a boca fazia-se pressão num desses furos para o conteúdo do ovo sair pelo outro. A casca era preenchida com água de cheiro feita com flores de laranjeira e os furos tampados com cera. Também não existiam as tradicionais músicas carnavalescas, então essa rapaziada compunha as próprias músicas, cujos temas eram inspirados nos acontecimentos do dia-dia nas fazendas da região.
Moças e rapazes só se aproximavam nas danças dos bailes realizados por um chefe de família. O namoro exigia responsabilidade e compostura e a comunidade tomava conhecimento quando se iniciava e quando terminava. Se perdurasse por mais de três meses, obrigatoriamente tinha que se transformar em noivado. Este permitia maior aproximação entre os noivos, que podiam andar de mãos dadas e ficar a sós sem a presença de um dos familiares da noiva. Por tradição, o noivo tinha que usar um lenço de linho bordado pela noiva visivelmente no bolsinho da camisa ou do paletó. A moça, ao tornar-se noiva, deveria usar vestidos com mangas longas, gola alta de renda e abotoadas ao pescoço. As alianças somente se tornaram de uso popular em 1918.
Não havia casamento civil. O casamento era realizado no religioso, na igreja ou na casa dos pais da noiva, na presença dos padrinhos, familiares e convidados. Os padrinhos do noivo custeavam as despesas do casamento no religioso e os da noiva custeavam a festa do casamento. Não era costume dar presentes isoladamente, mas obedecia-se a uma lista do necessário feita pelos pais dos noivos e os convidados, juntos, presenteavam-nos. Namoros e casamentos entre filhos de famílias de posses obedeciam a uma hierarquia tradicional. Aconteciam apenas se houvesse a aprovação dos pais e eram considerados os níveis de posse, cultura e sociabilidade dos pretendentes. Antes do casamento, o noivo já deveria ter sua casa devidamente montada e com os respectivos serviçais.
3. ORIGENS DOS NOMES DE ALGUNS BAIRROS DE PIRANGUINHO
Capote é o bairro mais antigo do Município. Seu nome teve origem em um dos produtos da antiga fazenda de Ricardo Mendes de Andrade, entre 1825 e 1870. Produziam-se nessa fazenda artigos de montaria tais como baixeiros, pelegos, mantas e capas para boiadeiros, chamadas capote. Com a morte do fazendeiro, em 1875, seus herdeiros dividiram e venderam as terras da fazenda. A sede da fazenda e mais três quartos das terras foram compradas por Manoel Marcelino Motta. Uma quarta dessas terras foi comprada por Sebastião Medeiros Neves. Manoel Marcelino Motta, que morava em Pedra Branca onde era fazendeiro e tropeiro, designou o seu filho mais velho, Gregório Pereira Motta, para morar e administrar a sede da fazenda que havia comprado. Foi nessa ocasião que a fazenda passou a ser denominada de fazenda que fazia o capote, ou simplesmente, Fazenda do Capote.
Isalina Pereira Motta recebeu como herança, em 1898, uma parte das terras que pertenciam ao pai Manoel Marcelino Motta. Nelas, um córrego com água ferruginosa, de cor avermelhada, foi a origem do Bairro Ribeirão Vermelho. Da antiga fazenda de Sebastião Medeiros Neves (1875-1918) surgiu o Bairro Neves. Um pequeno reservatório de água destinado ao rebanho da fazenda dos Neves, deu origem ao nome do Bairro Açudinho.
O Bairro Santa Bárbara localiza-se em uma das partes das terras que foram herdadas por Evaristo Pereira Motta de seu pai Manoel Marcelino Motta. Quando, em 1891, ele fez construir uma capela para a santa de sua devoção, Santa Bárbara, esse local passou a ser chamado de fazenda Santa Bárbara. Um curral para tropas de cargas da antiga fazenda de Ricardo Mendes de Andrade (1825-1875) deu origem ao Bairro Mangueiros. O nome mangueiro significa curral para animais. Na Revolução Constitucionalista de 1932, um outro local serviu de refúgio para muitos safarem-se dos combates entre mineiros e paulistas. Esse local tornou-se ao Bairro do Couto. Couto significa abrigo ou resguardo.
O nome do Bairro Mato Dentro originou-se de uma trilha feita através da mata interligando a fazenda dos Dias com a fazenda dos Carneiros. Essa trilha mata adentro com o passar dos tempos se tornou trilha mato dentro. Em outro local, uma espécie de árvore silvestre de nome gomeira, abundante na região, foi responsável pelo nome do Bairro Gomeiras. As gomeiras são árvores cujas raízes e cascas produzem um líquido viscoso, que era utilizado para engomar roupas.
Antes do advento da estrada de ferro o Distrito de Olegário Maciel chamava-se Pimenteiras. Por determinação do engenheiro, Dr. Olegário Maciel, encarregado da construção do trecho ferroviário, construiu-se nesse local um sistema de abastecimento de água para os trens e, para atender aos moradores da região próxima, fez construir uma estação de parada de trens. Os beneficiados com essa estação, a fim de homenageá-lo, deram seu nome à Estação.
4. MAXIMIANA: A FORÇA DA MULHER
Maximiana da Costa Manso tinha 74 anos de idade quando veio para Piranguinho, em 1901. Foi escrava doméstica na fazenda do Capitão Manoel Pereira Gomes, em Vargem Grande, onde aprendeu a ler e escrever. Foi uma das babás de Wenceslau Braz Pereira Gomes, filho de Francisco Braz Pereira Gomes. Libertada da escravatura pela Lei Áurea em 1888, permaneceu como doméstica na fazenda onde foi criada. Em 1901, Francisco Braz Pereira Gomes determinou que ela viesse para Piranguinho a fim de conter os desentendimentos preconceituosos entre brancos e negros ex-escravos que trabalhavam no engenho de serra e na construção da ferrovia.
Maximiana era de estatura alta, falava alto e com boa dicção, dominava a língua e o linguajar dos ex-escravos e se comunicava muito bem com os brancos. Em Piranguinho, ela procurou contatar trabalhadores e fazendeiros da região, dos quais adquiriu confiabilidade e se tornou líder dos negros locais. Sua primeira iniciativa foi arrumar um lugar onde esses negros, após os trabalhos diários, pudessem se reunir e divertir. Esse lugar foi a quarta de terras doada pelo Coronel Francisco Braz Pereira Gomes, no alto do espigão, onde ela fez construir, com a participação dos negros, um barraco de pau-a-pique para servir de igreja a São Benedito. A imagem do santo foi esculpida por um escultor, também de origem negra, chamado Candinho Siqueira da Cruz. O padre João Baptista Alvarenga, de São Caetano da Vargem Grande, celebrou a primeira missa na igreja.
Maximiana criou as Congregações de São Benedito e de Nossa Senhora Aparecida. Com os patrocínios de Francisco Braz Pereira Gomes e Leocádia de Lourenço, fez com que os negros passassem a realizar nos dias 13 de maio, no alto do espigão, as festas da Libertação e Exaltação à Princesa Isabel, o Congado. Essas festas, com danças, comedorias e doces tradicionais africanos tornaram-se famosas e muita gente da região e cidades vizinhas vinha assisti-las. Em 1906, com a participação de alguns dos fazendeiros da região, fez construir uma outra igreja, de tijolos e coberta com telhas, no centro do alto do espigão. Uma nova imagem de São Benedito, de madeira laqueada, foi doada por Marcolino Carlos. Nessa igreja, aos domingos e dias santos, ela passou a ensinar o catecismo e a alfabetizar a criançada negra e quem quisesse assistir às aulas. Em 1909, quando foi fundada a primeira Escola Mista de Piranguinho, as famílias negras não queriam que seus filhos estudassem nela, mas Maximiana conseguiu convencê-las e seus filhos foram matriculados.
A população local, formada por pessoas dos mais variados lugares e de costumes diferenciados, mantinha o preconceito de raça e cor. A maioria dos negros era de fazendas de outras regiões e carregava ainda mágoas da escravidão. Maximiana empenhou-se para que as mágoas dos negros e os preconceitos dos brancos fossem banidos; mesmo assim o preconceito persistiu. Eram poucos os brancos que freqüentavam a igreja de São Benedito. Em meados de 1913, o Coronel Francisco Braz Pereira Gomes, adoeceu. Não dispondo com quem deixar a documentação e o cuidado com Piranguinho, ele conferiu essa tarefa ao pároco da igreja de São Caetano, João Baptista Alvarenga. Após sua morte, em 25 de fevereiro de 1914, a Paróquia de São Caetano da Vargem Grande apossou-se do terreno do alto do espigão, que ele havia doado, em 1891, para que se iniciasse o arraial.
Quando, em 1918, ocorreu a epidemia da febre espanhola, Maximiana prestou relevantes serviços na coordenação da comunidade negra para os atendimentos a todos aqueles que contraíram a doença. O trabalho por ela coordenado atendeu aos doentes do perímetro urbano e da zona rural de Piranguinho. Consistia em ficar em companhia dos doentes, fazer-lhes a devida higiene e auxiliá-los nas medicações; se morressem, transportá-los ao cemitério e enterrá-los. Essa epidemia da febre espanhola ceifou a vida de muita gente da região e do Brasil, mas ninguém da comunidade negra de Piranguinho contraiu a doença e não havendo registro de óbito de pessoa negra nesse ano de 1918.
Por ocasião da entronização de Santa Isabel como a nova padroeira da comunidade local, Maximiana subiu numa mesinha improvisada no centro do alto do espigão e em alta voz externou a mágoa e o sentimento religioso da comunidade negra. Logo em seguida, os devotos de São Benedito retiraram da igreja todos os pertences religiosos das congregações de São Benedito e de Nossa Senhora Aparecida. Retiraram também a imagem de São Benedito e seu respectivo altar.
No início de 1921, a maioria das famílias negras, aproximadamente 2.800 pessoas, mudou-se do Distrito. Essa evasão repentina dos negros causou a falta de mão de obra nos carregamentos dos vagões de cargas da ferrovia, no comércio urbano e em muitos outros setores. Somente permaneceram quatro famílias: Bebiano; Pinto de Oliveira; Honório; Costa Manso. Os boatos da época apontaram Maximiana como a articuladora dessa evasão e muitos a marginalizaram.
Maximiana recebia do Coronel Francisco Braz um vencimento mensal ou até mais se ela necessitasse. Depois que ele faleceu, ela passou a receber seus vencimentos da comunidade negra local. Após esses acontecimentos, no início de 1921, e dos boatos de que foi vítima, ela não mais teve vencimento que lhe proporcionasse o mínimo necessário para sobreviver. Até então morava numa boa casa nas imediações da estação; daí ela passou para uma casinhola de tijolos, localizada onde atualmente se encontra o número 35 da Rua Leonino Gomes Corrêa, cedida por Nicota Gomes. Maximiana gostava de cantar e de crianças; sua maior alegria era quando alguém lhe pedia para contar sobre seu tempo de moça ou para cantar. Em 1930, contava com 103 anos de idade e já não escutava nem enxergava bem. Pouco saía de casa e quando o fazia era para mendigar comida ora na casa de um, ora na casa de outro, e assim foram os seus últimos anos de vida. Faleceu em abril de 1939, com 112 anos de idade, e foi sepultada no cemitério local.
5. OS CONSELHEIROS E SUAS FAMÍLIAS
O Conselho Deliberativo, uma espécie de governo local com poder de reivindicar ao poder municipal o necessário para o bem estar da população, foi formado no início da década de 1900, por iniciativa de Gregório Pereira Motta. Seus primeiros membros eram fazendeiros moradores da região que tinham Piranguinho como seu centro de comércio. Os primeiros Conselheiros foram: Gregório Pereira Motta, Manoel Machado Júnior, Antonio José Carneiro, Nestor Pereira Machado e Joaquim Pereira Motta Sobrinho.
Gregório Pereira Motta nasceu em Pedra Branca em 1848, filho de Manoel Marcelino Motta. Casou-se no ano de 1875 com Daria Cândida Cunha e recebeu como presente de seu pai a fazenda do Capote onde montou residência e constituiu família de dez filhos: Joaquim Pereira Motta Sobrinho, Manoel, Ildefonso, Luiz, José, Cornélio, Ana, Maria do Carmo, Amélia e Francisca Pereira Motta. Faleceu em 8 de fevereiro de 1933.
Manoel Machado Júnior nasceu no Mato Dentro em 1850 onde era fazendeiro. Filho de Manoel Machado Cruz, casou-se aos 21 anos e constituiu família de dez filhos: Otaviano, Antenor, Antonio, Nestor, Sebastião Pereira Machado, Ana, Cândida, Amélia, Isalina e Maria. Estabeleceu-se no comércio, em 1908, com um armazém atacadista importador e exportador.
Antonio José Carneiro (Tonico Carneiro) nasceu nos anos de 1870, na fazenda dos Carneiros. Os mais antigos diziam que os ancestrais do Tonico Carneiro eram holandeses radicados em Pernambuco, que de lá foram expulsos em 1780. Para cá vieram às escondidas, adotaram nomes portugueses, tornaram-se fazendeiros produtores de rapadura e açúcar mascavo. Teriam sido os moradores mais antigos a permanecerem nesta região.
Nestor Pereira Machado nasceu no Mato Dentro, na fazenda de seu pai Manoel Machado Júnior. Casou-se aos 22 anos com Ubelinda Renó e constituíram família de nove filhos: Heitor Machado, Hermínio, Otacílio, Célio, Nestor Jr., Júlia, Olinda, Carmem e Nair. Nestor Pereira Machado, além de ter sido um dos primeiros conselheiros, exerceu o cargo de Juiz de Paz, incentivou e liderou a construção da igreja de Santa Isabel, colaborou ativamente na implantação da primeira escola mista de Piranguinho. Seu nome aparece na história desde 1909. Em 1914, se estabeleceu no comércio comprador e exportador de café, e muito contribuiu para economia do Distrito. Seu comércio faliu com a crise do café acontecido em 1929. Daqui se mudou logo depois deixando relevantes trabalhos prestados e muitas amizades.
Joaquim Pereira Motta Sobrinho nasceu em 1877, na fazenda do Capote, filho de Gregório Pereira Motta e Daria Cândida Cunha Motta. Casou-se, em 1903, com Isabel Colorado Cavaco, natural de Lisboa, Portugal. Teve uma única filha chamada Maria da Anunciação Motta (Marieta), que se casou com Antônio Avelino de Almeida e passou a assinar Marieta Motta de Almeida.
6. PARTEIRAS E CURANDEIROS: O SABER COMPETENTE
As parteiras são as prestadoras assistenciais mais antigas do mundo. Suas atividades são mencionadas há mais de três mil e quinhentos anos no livro dos Vedas. Segundo os relatos de Benedita Dias Machado, Marieta Motta de Almeida e Ana Campos Guimarães, que tiveram partos assistidos por parteiras, na trajetória histórica de Piranguinho, houve quatro competentes parteiras: Graciana de Jesus, Maria Caetano Bebiano, Thereza Bebiano e Benedita Benta.
Os relatos elucidam que até aos anos de 1950, nessa região, todos os partos eram assistidos por parteiras e que todos os casos que conheceram foram bem sucedidos. As parteiras eram atenciosas, acompanhavam e orientavam as gestantes desde o primeiro mês de suas gestações. No quarto mês da gestação, faziam exames gerais nas gestantes, escutavam e apalpavam suas barrigas para examinar a posição do feto, colhiam suas urinas e as examinavam num tubo de vidro transparente e aquecido na chama de álcool. Quando percebiam anormalidade na posição do feto, elas receitavam caminhadas lentas, alguns chás fitoterápicos e faziam leves massagens com as mãos na barriga da gestante para posicionar o feto. Pela forma da barriga sabiam se o feto era masculino ou feminino, mas isso elas só diziam se as gestantes quisessem saber.
Era muito raro uma gestante querer saber o sexo do seu feto e, quando isso acontecia, as parteiras adotavam um método que comprovava com absoluta certeza o sexo do feto. Esse método consistia em fazer a gestante deitar-se com a barriga para cima, e com o auxílio de um pêndulo radioestésico que oscilava suspenso sobre a barriga, mas sem tocá-la, ficavam sabendo o sexo do feto. Se o pêndulo oscilasse no sentido longitudinal reto, o sexo do feto era masculino, se o pêndulo oscilasse de forma circular, o sexo do feto era feminino. Esse método do pêndulo radioestésico ainda é utilizado por muitas gestantes que não querem agredir seus fetos com ondas de ultra-som recentemente desenvolvido. É largamente utilizado tanto pelos pesquisadores de ossadas fósseis e como para se localizar veio de água subterrânea.
Além de suas parteiras, Piranguinho teve muitos curandeiros famosos. Os curandeiros eram indivíduos conhecedores das plantas medicinais, que dominavam as formas de prepará-las para tratamentos terapêuticos. Não possuíam títulos de habilitação, mas eram altamente capacitados nos tratamentos fitoterápicos e seus conhecimentos foram adquiridos durante longos anos com outros curandeiros. Além dos conhecimentos fitoterápicos, eram também sensitivos; isto é o que atualmente chamamos de psicólogos. Usavam conhecimentos sensitivos para auxiliá-los nos diagnósticos das doenças de seus pacientes, as quais nem sempre eram de natureza orgânica, mas sim psíquica.
Em suas próprias residências, os curandeiros atendiam os pacientes e preparavam medicamentos fitoterápicos de acordo com as doenças a serem tratadas. Além dos medicamentos de uso interno, preparavam também os de uso externo tais como linimentos, ungüentos, pomadas e loções. Prestavam assistência emergencial a encanamentos de ossos fraturados, luxações de queixo, suturas de cortes acidentais por ferramentas agrícolas, incisões de tumores, extrações de bichos de pé e de venenos de picadas de cobras e escorpiões. Eram indivíduos respeitados por todos e suas atividades reconhecidas como essenciais para a saúde da comunidade.
Os custos de seus tratamentos estavam ao alcance de todos que necessitassem e em muitos casos nada cobravam. Os curandeiros de Piranguinho foram: Bento Faria, de 1889 a 1918; Antonio da Cruz, de 1915 a 1930; Chico Menino, de 1928 a 1943; Luiz Wenceslau, de 1941 a 1960. Nesses períodos os médicos de Itajubá eram: Dr. Lisboa, Dr. João Azevedo; Dr. Gaspar Lisboa, Dr. Seabra, Dr. Cavi e Dr. José Mauad. Esses médicos de famílias tradicionais de Itajubá eram familiarizados com as práticas dos curandeiros da região com os quais mantinham amizade e trocas de informações fitoterápicas.
O último desses curandeiros foi o Luiz Wenceslau, que morava no Bairro Mourão, a três quilômetros da estação de Piranguinho. Sua clientela era de todas as classes sociais; muitos vinham de regiões próximas e outros tantos de regiões longínquas. Essa clientela vinha de trem até a estação de Piranguinho, continuava o trajeto a pé ou a cavalo até casa dele, no Bairro Mourão. Luiz Wenceslau (Luiz Curador) era agricultor e atendia nas segundas, quartas e sextas feiras. Nesses dias de atendimento, muitos aqui ficavam hospedados para tratamento. Em média ele atendia cento e sessenta pessoas por semana. Luiz Wenceslau se destacou entre os demais curandeiros devido ao seu desenvolvimento radioestésico e telepático. Dado a esse desenvolvimento ele podia tratar dos doentes impossibilitados de virem consultá-lo pessoalmente. Bastava para isso que os doentes lhe enviassem, através de portadores, uma peça de roupa e, mediante esta, Luiz Wenceslau diagnosticava a doença e lhes enviava os devidos medicamentos.
Em 1960, Luiz Curador foi impedido de exercer sua atividade. O impedimento partiu dos novos médicos que se instalaram em Itajubá, mas mesmo assim ele não deixou de atender a sua clientela. No dia 14 de maio desse mesmo ano, quando atendia os seus pacientes, foi preso e conduzido para a Delegacia de Itajubá, mas de imediato foi posto em liberdade pela intervenção de seus amigos médicos daquela cidade. Tais fatos demonstram que as atividades dos curandeiros foram importantes tanto para a economia local como para divulgar o nome de Piranguinho.
7 – OS PESCADORES: VIVENDO DO RIO
Até 1977, a pescaria foi o meio de sobrevivência de muitos pescadores da região. Ela se tornou fonte de renda logo após o funcionamento da ferrovia, em 1896. As águas dos rios eram límpidas e suas curvas naturais. No rio Sapucaí era grande a variedade de peixes pequenos, médios e grandes, tais como lambari, bagre, piaba, cascudo, mandi, curimbatá, surubi, traíra e dourado. O Ribeirão dos Porcos também oferecia abundante quantidade de peixes pequenos como lambaris, piabas, bagres e cascudos. Os peixes abundavam também nas grandes lagoas.
Os primeiros pescadores de Piranguinho, entre 1896 a 1920, foram Custódio Xavier, José Herculano e João Siqueira. Posteriormente vieram Pedro Costa e sua mulher Maria Raimunda – apelidada de Maria Traíra por se dedicar exclusivamente à pesca de traíra em lagoas –, Benedito Roque e sua mulher Francisca Roque, José Xavier; José Faustino, José Constantino, Benedito Brito e Luiz Ferreira da Silva. Todos esses pescadores utilizavam anzóis e canoas com remos e varejões. Pescavam no Sapucaí de madrugada, entre a ponte de ferro e o poço da curva grande do rio no pinga-pinga. Construíram, na margem do rio, um barraco de pau-a-pique, coberto com sapé, para guardarem seus apetrechos de pesca e venderem seus pescados. Esse barraco serviu também a todos os pescadores que posteriormente vieram e foi demolido em 1949. O Porto dos Pescadores, como era chamado, localizava-se onde atualmente termina a Rua Tutuca.
Em 1951, Piranguinho passou a contar com mais um pescador profissional, Aparício Pereira Martins, natural de Brazópolis que se mudou para cá com sua esposa Jacyra Pereira de Mendonça e os filhos Maria Aparecida Martins, Nair Mendonça Martins, Hilda Mendonça Renó, Benedito Pereira Martins, João José Martins Mendonça, Dinorah Pereira Martins, Edvar Luiz Mendonça e Grácia Maria Mendonça Martins. Alguns anos depois, em 1959 seu genro, Milton Renó, também pescador profissional, transferiu-se de Brazópolis para cá com sua esposa Hilda Mendonça Renó, e os filhos. Com a alta poluição dos rios, os peixes tornaram-se escassos. Além disso, a proibição da pesca nos períodos de desova ajudou a acabar com a pescaria profissional na região.
8. AS MULHERES DE VIDA NADA FÁCIL
Em 1894, o casal Custódio Siqueira e Gertrudes Siqueira, donos de casas noturnas de meretrícios em Pouso Alegre, implantaram em Piranguinho duas dessas casas. Essas casas eram de madeira sobre base de pedras, cobertas com zinco, assoalhadas, grandes e com muitos quartos. Uma dessas casas era mais requintada, com meretrizes mais caras para os fregueses exigentes e de posses. Nela havia um bar somente para os fregueses da casa, onde eram servidos petiscos de codornas, vinhos e uma bebida especial da casa, chamada Levanta Prego. Essa bebida especial era preparada com pinga, gengibre, mel de abelhas, canela e carapiá. Nesse bar, todas as noites havia músicas ao vivo com conjuntos musicais.
A outra casa era de nível popular, com meretrizes a preços compatíveis com os fregueses menos exigentes. O local dessas casas passou a chamar-se Zona dos Canudos, nome que se originou do sistema de iluminação feita em torno dessas casas e na estradinha de seus acessos. Essa iluminação era feita com canudos de bambus cheios de azeite e com um pavio que, ao ser aceso, servia de candeia.
Dona Gertrudes, como era chamada, e seu marido Custódio Siqueira, impunham ordem e disciplina no local; para isso havia vários bate-paus a disposição da segurança. As mulheres que atendiam na zona eram de Pouso Alegre e de Itajubá, e eram selecionadas e contratadas por Dona Gertrudes. Em Itajubá havia Rua dos Prazeres, que, após a construção da fábrica de tecidos Codorna, passou a ser chamada de Beco da Fábrica. Pouso Alegre tinha a maior zona da região, com maior número de mulheres, sujeitas à cafetina chamada Dona Gôndola. A zona de Piranguinho era a menor de todas, mas era a mais famosa e suas noitadas eram as mais caras da região.
De todas as mulheres que serviram em Piranguinho, as que se destacaram em 1929 pelas suas beldades, foram: Maria dos Prazeres, Lourdinha, Terezinha Mello e Rebeca. As mulheres não se expunham em público; quando saíam às ruas eram bem vestidas e reservadas. Eram identificadas pelas sobrancelhas modeladas, unhas e lábios pintados de vermelho. Dona Gertrudes e seu marido Custódio Siqueira ficaram ricos em Piranguinho e, no final do ano de 1929, adquiriram uma grande fazenda nas imediações de uma cidadezinha chamada Cascavel, Estado do Paraná. Em seguida, encerraram suas atividades em Piranguinho e para lá se mudaram. As terras, que eram de Antonio José Rennó Júnior, tinham sido doadas, em 1908, para quem nelas quisesse morar; foi daí que se originou o Bairro Canudos.
9. OS HOMENS DA LEI: SEGURANÇA GARANTIDA
A população inicial de Piranguinho era formada por pessoas vindas dos mais diferentes lugares, de costumes e comportamentos diferenciados. Eram trabalhadores da construção da linha férrea, do engenho de serra e da cantina que fazia a comida pra toda essa gente. Já nesse início houve a necessidade de se manter a segurança entre esses trabalhadores. O primeiro que assumiu esse cargo, assessorado por três bate-paus – capangas –, foi um feitor da ferrovia chamado Valadão Mendes.
O crescimento populacional de Piranguinho em 1904 e o aumento do dinheiro circulante atraíram banqueiros de jogos de azares, cartomantes e meretrizes. Com isso, surgiram desentendimentos e as noitadas tornaram-se tumultuadas com brigas, furtos e assassinatos. Nessa ocasião, os fazendeiros influentes da região, Gregório Pereira Motta e Manoel Machado Júnior, solicitaram do Governo Estadual um Destacamento Policial Militar para Piranguinho. Nesse mesmo ano veio para Piranguinho o Destacamento Policial Militar composto por Cabo e três Soldados Militares.
Em 1913, Piranguinho foi elevado a Distrito e o Juiz de Direito da Comarca de São Caetano da Vargem Grande nomeou Januário José Pinto para o primeiro cargo de Oficial de Justiça de Piranguinho. O cargo de Oficial de Justiça passou a se chamar Subdelegado de Polícia, em 1918. Os Subdelegados de Polícia eram membros da própria comunidade e eram nomeados pelo Juiz de Direito da Comarca. Foram Subdelegados de Polícia, entre 1913 e 1992, Januário José Pinto, Augusto Tenório, Antonio Luiz Alves Noronha, Manoel Theotônio Pereira dos Santos, Alferes Cândido Rennó, Leonino Gomes Corrêa, Sebastião Pereira Machado, João Carvalho de Castro, José Dias Ferreira, José Caetano Ferreira (Zé Honorato), Benedito Dias Ferreira (Carneirinho), José Antunes Pereira, Benedito Dias Ferreira (Lica), Benedito Alcântara (Pelonha), João Ribeiro Lisboa, Plínio Oliveira Cardoso, Carlos Raimundo da Costa (Carnera) e, por último, Vicente Paula de Souza (Vicente Barbeiro). De todos esses cidadãos que exerceram o cargo, Sebastião Pereira Machado foi o único nomeado pelo Presidente da República, Getúlio Dornelles Vargas, em dezembro de 1930 e exerceu o cargo até 1945.
Em março de 1992, a segurança Policial de Piranguinho passou a contar com permanência do seu primeiro Delegado de Carreira, Dr. Daniel César Botto Collaço e o Destacamento Policial passou a contar com o comandado de um Sargento da Policia Militar, Alexandre José de Paiva Venturelli. Entre todos os policiais militares que vieram destacados para Piranguinho e aqui permaneceram, constituindo família integrando-se na comunidade, foram: João Carvalho de Castro (João Soldado), Cabo Lauro, Geraldo Ovídio da Silva, José Lourenço de Assis (Baiano) e Paulino da Silva Oliveira.
10. A ALEGRIA DOS VELHOS CARNAVAIS
Em 1938, por iniciativa dos irmãos Antônio Avelino e Avelino de Almeida, Piranguinho viu desfilar por suas ruas o bloco carnavalesco FLORISBELA. O bloco era formado por jovens, meninos e meninas, porta-estandarte e comissão de frente, acompanhados pela banda musical. Dançavam e cantavam a música do próprio bloco. No fim do desfile, nos três dias da folia, realizava-se o baile no salão da máquina de café, com a animação do conjunto dos músicos de Piranguinho. Era um baile bastante animado, com serpentinas, confetes e lança-perfumes. Só terminava no amanhecer do dia.
O mesmo bloco voltou a desfilar em 1939, com a mesma animação, mas com o nome de IAIÁ-BONECA. Nesse ano foi criado um bloco rival, MOCIDADE, liderado por João Ribeiro Costa (Tetéia) e Euzébio Teixeira. Para evitar atritos, os blocos desfilavam em ruas diferentes, mas seus participantes criavam refrões para provocar os rivais. No carnaval de 1939, a música que fez sucesso foi a hoje conhecida “Jardineira”. Para registro, aqui fica a letra da música de 1938: FLORISBELA
Entre uma rosa amarela,
Um cravo branco ou um jasmim,
Encontrei a Florisbela
Entre as flores de um jardim.
Implorei um beijo dela,
Ela nem olhou pra mim...
Afinal, as flores belas
Todas elas são assim...
Vendo que nada arranjava,
Eu dei o fora por fim,
E a Florisbela
Quando viu que eu me afastava
Correu atrás de mim.
Afinal, as Florisbelas
Todas elas são assim.
Em 1939, a provocação:
Sapateia minha gente
Na pontinha da chinela.
Sai da frente Mocidade
Quem ganhou foi Florisbela.
11. UM CAMPO DE AVIAÇÃO: SONHANDO ALTO
No dia 27 de setembro de 1942 foi inaugurado o campo de aviação de Piranguinho. Construído num terreno espigão de um morro pertencente à fazenda de Marcolino Carlos, a obra foi idealizada e realizada por Juracy Mota de Almeida, proprietário da Farmácia Santa Isabel e farmacêutico prático. O discurso de inauguração foi proferido por Terezinha Eloy da Silva e as madrinhas do evento foram Núria Mota de Almeida e Alcéa Cunha Torino. Fotos do evento mostram o momento em que o avião decolava, conduzindo um dos participantes para um passeio aéreo sobre Piranguinho. Inúmeras pessoas aparecem prestigiando a inauguração, entre elas Joaquim Pereira Motta Sobrinho, Marcolino Carlos, Maurício Gomes da Rocha, José Machado (Zezé Estuca) e o menino Joaquim Mota de Almeida. No dia seguinte, os irmãos Joaquim, Jandir, Jair, Núria e Zizica fizeram o seu primeiro vôo “passeando” sobre Piranguinho, Capote e São José do Alegre. Nessa época, Juracy fundou o aeroclube de Piranguinho com os seguintes associados: Nelson Guimarães, Maurício Gomes da Rocha, João Machado e José Braz Rezende. O instrutor era o piloto aviador José Machado (Zezé Estuca).
12. O PÉ DE MOLEQUE: AMBROSIA DOS DEUSES
Dentre as muitas guloseimas doces feitas no Brasil desde o período colonial, destaca-se uma feita com amendoim e rapadura. Esse doce recebeu o mesmo nome do calçamento de pedras lascadas das ruas de antigas cidades brasileiras: pé-de-moleque. No Jornal do Brasil, de 24 de janeiro de 1982, há essa referência: “Em ruas de Parati, calçadas com pés-de-moleque, escorrem filetes de água preta, suja.” Embora várias versões tenham surgido através dos tempos a respeito da origem desse nome, preferimos a citada em contos baianos datados de 1860, apresentada por Cornélio Pires em “Quem conta um conto ganha um ponto”, p. 100: “Era tão bom ver tabuleiros de negras velhas que se estendiam em frente ao circo, vendo-se sobre os panos brancos ... bolinhos de frango, amendoim, pé-de-moleque, e mil guloseimas amontoadas em ordem.”
O pé-de-moleque apareceu em Piranguinho por volta de 1911, quando Dona Maria Paulina de Noronha (Neném Paca), com a devida autorização, construiu, ao lado da estação ferroviária de Piranguinho, um cômodo de madeira coberto com zinco aonde ela instalou um barzinho. Nele, os viajantes que passavam de trem, podiam saborear um delicioso cafezinho com biscoitos, bolos, sonhos e uma variedade de doces, inclusive o pé-de-moleque, feitos por Dona Neném. A partir de 1928, a administração do bar passou para seus familiares e, em 1938, ele foi desativado.
Desde 1936, Dona Matilde Cunha Torino, esposa do agente da estação – onde moravam –, passara a fabricar pés-de-moleque e vendia-os diretamente nos trens de passageiros. Dona Matilde aprimorou a aparência e o tamanho do doce e passou a divulgá-lo com o nome “Pé-de-moleque de Piranguinho”. Seus pés-de-moleque tornaram-se conhecidos e adquiriam fama. Posteriormente sua filha, Alcéia Cunha Torino, mantendo o mesmo padrão de qualidade, ampliou a produção e requereu patente do nome do produto.
Em 1963, com a desativação dos trens de passageiros, Dona Alcéia instalou uma barraca de madeira coberta de zinco e pintada de vermelho na margem direita da rodovia BR 459, no perímetro urbano de Piranguinho. Em 1969, uma outra barraca de pés-de-moleque, de cor azul, foi instalada pelo Sr. Otávio Antunes de Carvalho na margem da mesma rodovia. A partir de 1971, a “barraca azul” passou a ser administrada por sua filha Anunciata Passos de Carvalho. Posteriormente, com o aumento do fluxo rodoviário, muitas outras barracas surgiram, identificadas pelas suas cores. Atualmente existem oito barracas e um Rancho no perímetro urbano fazendo a fama de Piranguinho como Capital Nacional do Pé-de-moleque.
13. ONTEM COMO HOJE: A JUVENTUDE EM CENA
Um povoado ou uma cidade se projeta pela vida e feitos de seus habitantes. Piranguinho, nesses cinqüenta anos de sua vida, projetou-se graças aos seus habitantes que para cá vieram no seu início e aqui permaneceram. Trabalharam para um bem comum e para o progresso, constituíram famílias e se tornaram piranguinhenses de coração. Alguns nomes das senhorinhas, das meninas moças e dos rapazes que constituíam a sociedade da época permaneceram na memória das famílias e antigos moradores. De todos esses, nem todos permaneceram em Piranguinho para continuarem sua história, porém, muitos dos que saíram levaram o nome desta terra para outras paragens onde se impuseram, progrediram, sem, contudo deixar de ser piranguinhenses de coração.
Entre moças e meninas dos anos 30 e 40 podemos destacar: Ditinha Domingues, Maria José Gomes, Samaritana Carvalho, Geni Gomes, Clara Renó, Doca e Ana Carneiro, Urbana de Paiva, Geralda Paiva, Fifica, Floriana Matias, Nica Renó, Ana e Maria Moreira, Odete, Ziza, Luzia Dias, Zezé, Luzia e Aracy Ferreira, Lelé e Lourdes Cardoso, Yayá, Carminha Gertrudes, Alzira e Zezé Dias Ferreira, Maria de Lourdes Miranda, Maria José Caridade, Alcea Cunha Torino, Ciloca Machado, Zizica e Nuria de Almeida, Inês Gomes, Lina e Olindina, Maria Barbato, Lourdes Jorge e Gonçalina de Jesus. Entre rapazes e meninos: Avelino Almeida, Tetéia, Paulo Carneiro, Waldomiro e Cadico Costa, Carneirinho, José Ildefonso, João e Waldomiro Machado, Zuza de Almeida, Jurandir e Juracy de Almeida, Pirola, João Renó, Chico Moreira, Chico Gomes, Helio Gomes, João Coronel, Geraldo Domingues, Zuza Arantes, Loca e Lica Ferreira, Pedro Coronel, Zezinho Monteiro, Sebastião Carlos, Sebastião Coruja, Osvaldo e João Machado, João Iba, Nelson Guimarães, Zito Machado e José Torino.
Entre os anos 50 e 60, a vida social de Piranguinho foi animada por nova geração de jovens cujos nomes ficam aqui registrados: Elzira, Ercy e Rose Guimarães; Zenilda, Maria Helena, Neta e Marilda Grilo; Célia Carneiro; Iolanda e Darcy Dias Machado; Célia, Clélia, Dalva e Vanda Machado; Zorilda; Inêz Caridade; Maria Eunice Dias; Ilza e Marisa Resende; Cidinha e Néia Martins; Zilma e Valdene Cândido; Déa, Nice e Nilceia Cândido; Gizelda e Creuza; Dorotea e Cidinha Cardoso; Tereza Marinho; Nina Cândido; Lina da Alcea; Sinamor e Iná Ferreira; Maria Aparecida Antunes; Lídia Antunes e Vanda Dias, Paulo de Barros; Haroldo Almeida; Jair, Jandir e Joaquim Mota de Almeida; Benedito e João Martins; Luiz Antunes; José Carlos de Carvalho; Alencar, Toaní e Iramildo Rezende; Dinorah Martins; Mendoncinha; José e Nilton Guimarães; Mário e Paulinho Moreira; Vitor e Vanildo Dias; Hilton e Antônio Carlos de Carvalho; Romeu Machado; Laércio, Roberto, Netinho e Paulo Machado; José Divino e Pedrinho da Silva; José Olinto; José Dias; Toninho e Manoel Martins; Luiz Roberto Dias; Harley de Almeida; Lázaro Inácio Pereira (Zinho); José Antunes Ferreira; Luizinho Antunes; Tadeu Machado; Oberdan Costa: Tiaõzinho do Zito; Luizinho Monteiro (Xandú); Salinho e João Aimoré; Tezinha, Dico e José Luiz; Cozinheiro; José Carvalho; Benedito Marinho (Torto) e Pedro Paulo da Cruz.
14. CINE-TEATRO PIRANGUINHO
Nós, rapaziada piranguinhense, reuníamo-nos no jardim onde conversávamos, contávamos piadas, outros falavam de futebol, outros falavam sobre teatro e cinema, apesar de não termos teatro nem cinema em Piranguinho. A idéia de fazer um prédio para cinema e teatro em Piranguinho ocorreu-me no início de janeiro de 1954. O Harley, o João Aparício e eu fomos à noite a Itajubá assistir ao filme “O Cangaceiro”, no Cinema Apollo. Fomos no trem das 20 horas, assistimos ao filme que terminou aproximadamente às 23:30 horas e depois não tivemos condução para voltar. Chovia muito nesse dia, a estrada estava barrenta e com muito custo conseguimos um taxista que tivesse a coragem para enfrentar a estrada e nos trazer de volta.
A partir desse dia decidi montar um cinema em Piranguinho e, para isso, também foi necessário construir o prédio. Aconteceu que, na ocasião, em virtude das chuvas, não havia tijolos no Distrito e as olarias já estavam com suas produções comprometidas por um ano. Meu avô, Joaquim Motta, prontificou-se a montar uma olaria e administrá-la para produzir os tijolos necessários para a construção do prédio do cinema. Não existia, na região, loja que vendesse madeiras, telhas ou materiais de construção; como os Senhores Mário Braga e Benedito Lisboa também precisavam de madeira e telha para suas construções, nos associamos e compramos o velho casarão da fazenda do Sr. Antonio Domiciano. Retiramos as madeiras e as mandamos desdobrá-las em linhas, caibros e ripas. Fretamos um vagão da ferrovia e mandamos vir telhas de Tambaú. O prédio para cinema e teatro, com suas devidas instalações e mobiliários, foi concluído no final de fevereiro de 1955.
O Cine-Teatro Piranguinho possuía cento e setenta e oito lugares e um sistema de alto falante externo para propagandas dos filmes. Sua inauguração deu-se no sábado, dia 15 de março, com a exibição do filme “Até o Último Homem”. Os filmes eram alugados dentro de uma programação mensal da Distribuidora de Filmes Vale do Paraíba, localizada em Carmo de Minas. A programação do Cine Teatro Piranguinho era de três filmes semanais: quartas-feiras, sábados e domingos. A modalidade de filmes variava: para as quartas-feiras eram sempre dramáticos; para os sábados, faroestes; para os domingos, filmes de guerra, religiosos ou de aventura. Essa programação agradava os freqüentadores, razão pela qual todas as sessões ficavam lotadas. Durante os cinco anos em que o Cine-Teatro Piranguinho esteve em atividade, houve cinco apresentações teatrais: “Grupo Teatral Mocidade do Serro”, através de Dona Hilza Dias de Carvalho; “Grupo Teatral da EFEI”; através do formando daquela faculdade, Romeu Machado; “Grupo Teatral Vale do Paraíba”; “Monólogo Maurício Silva”; “Mágico Poll Charlant”. E importante ressaltar que, até essa época, os entretenimentos noturnos dos moradores eram: ir à estação ver o trem de passageiros; ouvir rádio-novela; passear e conversar no jardim. Entre 1955 a 1960 a outra opção foi o Cinema.
Por que deixou de existir o Cinema em Piranguinho? Em 1958, o governo federal unificou o valor do salário mínimo em todo o país. Até então os valores salariais eram proporcionais a cada região. Com isso, os produtores rurais dessa região não puderam pagar aos seus trabalhadores braçais os mesmos valores que as indústrias dos grandes centros pagavam aos seus empregados. Muitos produtores, na tentativa de continuar produzindo, propuseram parcerias nas lavouras com os seus trabalhadores braçais, mas a maioria deles não aceitou. Eles preferiram as indenizações por tempo de serviço e mudaram-se para centros maiores para trabalhar nas indústrias. Como o comércio urbano dependia da produção rural e do movimento comercial da maioria desses trabalhadores, acabou por ficar com sua economia abalada. Em 1959, a maioria dos estabelecimentos comerciais, máquinas de beneficiar arroz, fecularias e bares que existiam no perímetro urbano encerraram suas atividades. Até a única farmácia do Farmacêutico José Otávio de Morais transferiu-se para Itajubá. Aconteceu também que muitas famílias do perímetro urbano se mudaram para centros industriais a fim de proporcionarem trabalhos aos filhos. Com o Cine-teatro não foi diferente: sua freqüência caiu consideravelmente e as sessões já não cobriam as despesas. Teve, portanto, o encerramento de suas atividades Em dezembro de 1959, suas atividades foram encerradas.
15. A POLÍTICA NO DISTRITO
Antes de 1930, os eleitores de Piranguinho votavam na seção eleitoral de Brazópolis. A primeira seção eleitoral no Distrito ocorreu em 1945, nas eleições para presidente da República, cujos candidatos eram o General Eurico Gaspar Dutra, do PSD, e o Brigadeiro Eduardo Gomes, da UDN. Foi também o momento da disputa pela prefeitura de Brazópolis.
Em Piranguinho, havia três correntes partidárias: UDN, PSD e PR. Uma corrente partidária era formada pelo chefe político, os afiliados e seus cabos eleitorais. A campanha política era feita no boca-a-boca nas casas dos eleitores e através dos comícios em palanques montados na praça Cel. Braz. Nos comícios, os candidatos apresentavam suas propostas de governo e atacavam seus adversários políticos. No dia das eleições, os representantes dos partidos enviavam meios de transporte, juntamente com os cabos eleitorais, para trazerem seus eleitores da zona rural. Antes que estes fossem votar, eram conduzidos a um local onde recebiam sanduíches, refrigerantes e cédulas dos candidatos em que deveriam votar. Em seguida, eram acompanhados pelos cabos eleitorais até as urnas de votação.
Havia três desses redutos eleitoreiros: um era da UDN e os outros dois eram do PSD. Essa forma de captar votos nas eleições era chamada de “voto de cabresto”. Essa modalidade de voto por cédulas nominais foi substituída na década de 1980 pelo voto em cédula única fornecida pelo mesário na seção de votação. Assim reprimiu-se, em parte, o voto de cabresto. No final da década de 1990 foi introduzido o voto em urnas eletrônicas.
Um episódio revelador de conflitos políticos costumeiros ocorreu num comício da UDN, realizado no dia 26 de agosto de 1958. Estavam presentes Otacílio Machado, Cláudio Rezende, Elias Simão Jorge, Noé Pereira Serpa, Aureliano Chaves de Mendonça e Euclides Cintra. Num discurso, Padre Lúcio Remuzat Renó elogiou as propostas de governo do candidato e declarou como os seus projetos progressistas e sociais para a comunidade foram bloqueados e traídos pelos chefes políticos do PSD de Brazópolis, Geraldo Felix da Mota e Benedito Pereira de Mendonça. Declarou também que os dois chefes políticos planejaram serem fotografados juntos ao Bispo da Diocese de Pouso Alegre para, posteriormente, exibirem a foto na campanha política.
Padre Lúcio foi um idealizador e realizador. Além da casa paroquial de Piranguinho, construiu também um prédio em Brazópolis destinado à fábrica de tecidos e adquiriu o maquinário necessário, equipando devidamente o estabelecimento. A fábrica não chegou a funcionar devido ao bloqueio político da oposição partidária. Posteriormente o prédio foi vendido para a fábrica de doces “Sinhá”. É importante observar que, nessa época, a Igreja Católica exercia um peso decisivo sobre os resultados das eleições. Daí o interesse dos políticos em se exporem e serem fotografados em todas as solenidades e celebrações católicas.
16. CRÔNICA POLÍTICA DO MUNICÍPIO ATÉ 2000
A primeira eleição Municipal de Piranguinho realizou-se em 30 de junho de 1963 e em 1º de setembro tomaram posse os candidatos eleitos Geraldo Felix da Motta e Manoel Dias Machado. Tomaram posse também os vereadores Jandir de Almeida, José Caetano Ferreira, Sebastião Luiz dos Santos, José Fernandes da Rosa, Adolfo Pereira de Almeida, José Onofre Ribeiro, Elcio Ribeiro Motta, José Dias Ferreira e Elpídio Felix Barbosa. A primeira Prefeitura Municipal de Piranguinho foi instalada num prédio particular situado à Praça Cel. Braz, n0 26, cedido pelo seu proprietário Antonio Avelino de Almeida. Algumas das obras básicas realizadas pelo primeiro prefeito foram: formação do quadro de serviçais braçais; reforma e ampliação do sistema de abastecimento de água encanada; ampliação do sistema de iluminação pública; reforma do jardim público; asfaltamento das ruas da Praça Coronel Braz; implantação da rede de esgoto; restauração das estradas rurais e de seus mata-burros; reforma de duas salas da Escola Municipal do Mato Dentro e outras tantas obra de pequenos portes, mas necessários nos demais bairros do Município.
Em outubro de 1966, disputaram o governo municipal José Onofre Ribeiro e Francisco Dias Ferreira, com os candidatos a vice Waldomiro Pereira Machado e Francisco José Ladislau. Em 31 de janeiro de 1967, tomaram posse José Onofre Ribeiro e Waldomiro Pereira Machado. Também foram empossados os vereadores Antônio Carlos de Carvalho, Elias Simão Jorge, Elcio Ribeiro Motta, José Pereira da Costa, Francisco Cândido, Mário Renó, José Lisboa Mota, Olavo Pereira de Castro e José Pedro da Silva. As principais realizações dessa administração no perímetro urbano foram: asfaltamento da Avenida Machado Júnior; implantação do Curso Ginasial em Piranguinho e a construção de seu prédio em terreno doado pela Senhora Benedita Dias Machado, viúva do Sr. Sebastião Pereira Machado. Posteriormente o “ginásio”, como era chamado, transformou-se na Escola Estadual Sebastião Pereira Machado.
Em outubro de 1970, disputaram a prefeitura José Pereira Costa e José Dias Ferreira com os candidatos a vice-prefeito. Francisco Dias Ferreira Neto e Wenceslau Vergueiro. Tomaram posse, em 31 de janeiro de 1971, José Pereira Costa e Francisco Dias Ferreira Neto. Tomaram posse também os vereadores, Joaquim Norberto, José Gilney Lisboa, Benedito Vilas Boas, Benedito Lisboa Mota, Joaquim Cândido, Nilton Campos Guimarães, Antônio Avelino de Almeida, José Edson Mota e Dalton Lisboa Motta. Essa administração teve a duração de dois anos para que a eleição municipal passasse a coincidir com as demais eleições municipais do Brasil. A administração deu continuidade ao programa municipal de conservações e manutenções das estradas rurais e dos bairros.
A quarta eleição municipal realizou-se em outubro de 1972 com os candidatos a prefeito: Francisco Dias Ferreira Neto, Benedito Luiz Gonzaga e Jandir de Almeida. Foram candidatos a vice-prefeito Joaquim Cândido, João Rodrigues Romeiro e Manoel Dias Machado. Tomaram posse, no dia 31 de janeiro de 1973, os eleitos Benedito Luiz Gonzaga e Joaquim Cândido. Foram empossados os vereadores João Antunes de Carvalho, Lázaro Carneiro, Regis Carvalho Motta, Guido Ribeiro de Castro, Pedro Xavier de Paiva, Ataliba Ferreira da Costa, Antônio Pereira Mota, Milton Pinto de Andrade e Gonçalino Mauricio. As principais realizações dessa administração foram: ampliação da rede de esgoto; abertura da Rua Evaristo Mota; reforma da antiga ponte de concreto existente sobre o Rio Sapucaí que interliga Olegário Maciel a São José do Alegre. A administração contraiu dívida muito além da receita do município com a compra de uma máquina niveladora “Patrol”. Essa dívida, acompanhada de juros e correção monetária, desestabilizou os compromissos do Município, que, por falta dos devidos pagamentos da energia elétrica, deixou suas ruas às escuras. O sistema de abastecimento de água encanada foi interrompido pela queima da bomba elevadora e não havia recursos econômicos para restaurá-la. Funcionários públicos, trabalhadores braçais e professoras municipais ficaram com seus vencimentos atrasados. Até então, os vereadores do Estado de Minas Gerais não eram remunerados pelos seus trabalhos; nessa ocasião entrou em vigência a Lei Estadual estabelecendo remuneração aos vereadores. Essa remuneração era proporcional à receita do município, mas os vereadores de Piranguinho deixaram de receber remuneração. Os impostos municipais foram majorados e foram criadas taxas de esgoto e limpeza de rua.
Ao aproximarem-se as eleições de 1976, os partidos políticos de Piranguinho, MDB e ARENA, não haviam apresentado seus candidatos para prefeito municipal. Muitos dos que tiveram os nomes indicados para candidato, não aceitaram. Finalmente a ARENA apresentou o seu candidato, Regis Carvalho Motta, que foi o único para as eleições em novembro de 1976, com candidato a vice João José dos Reis. A posse ocorreu no dia 31de janeiro de 1977, juntamente com a dos vereadores José Lisboa Mota, Paulo Sales Ribeiro, Benedito Alcântara, Guido Ribeiro de Castro, Elcio Ribeiro Motta, José Jair Ribeiro, João Pereira Goulart, Lázaro Carneiro e Geraldo Carlos da Silva. Com vigor e dinamismo, essa administração obteve da Câmara Municipal o apoio incondicional para sanar urgentemente as necessidades básicas de Piranguinho. Obteve também o apoio financeiro estadual através dos Deputados Francisco Bilac Pinto e Euclides Pereira Cintra. De início, quitou as dívidas contraídas no governo anterior, restaurou a iluminação pública e o sistema de abastecimento de água encanada. Posteriormente realizou obras que em muito engrandeceram Piranguinho, tais como: implantação e distribuição de água pela “COPASA”; implantação da primeira agência bancária – “BRADESCO”-, construção do prédio do Paço Municipal, criação da Bandeira do Município e seu respectivo emblema, limpezas e retíficas dos rios Sapucaí e Ribeirão dos Porcos na extensão do perímetro urbano, ampliação das salas de aulas da Escola Almerinda Valente de Lima; adaptação do prédio público da Praça Cel. Braz para a instalação do Posto de Saúde, substituição das lâmpadas incandescentes da iluminação pública por lâmpadas de mercúrio, assoalhamento da ponte de ferro sobre o Rio Sapucaí, interligando Piranguinho ao Município de Itajubá, para ser utilizada como ponte rodoviária; implantação com a Empresa “Gardênia” de uma linha circular de ônibus intermunicipal Piranguinho-Itajubá, início da construção de casas populares padronizadas para os munícipes de baixa renda e desapropriação do devido terreno de Rubens Mota para essa finalidade (atual Bairro Santa Efigênia). Nessa ocasião, a remuneração mensal do Prefeito Municipal de Piranguinho era de um salário mínimo e o dos vereadores era um quarto desse valor. No término da gestão, esses valores foram reajustados e passaram três salários mínimos para prefeito e um salário mínimo para vereador. Essa administração recebeu a prefeitura com elevada dívida e deixou-a com saldo positivo.
Em outubro de 1982, os candidatos ao governo do Município foram João José dos Reis e José Pedro da Silva, pelo PDS, Antônio Luiz Carneiro e Pedro Xavier de Paiva, pelo PMDB. Tomaram posse, no dia primeiro de fevereiro de 1983, João José dos Reis e José Pedro da Silva, e os vereadores Idalino Augusto da Silva, Pedro Paulo da Cruz, Guido Ribeiro de Castro, Luiz Roberto Dias, José Jair Ribeiro, Sebastião Francisco de Andrade, João Antunes de Carvalho, Carlos Raimundo da Costa e Salomão Machado Guimarães. As principais obras dessa administração foram: início da construção do Bairro Santa Efigênia com a partilha de lotes e a edificação das primeiras casas populares através de mutirão; construção de uma ponte de concreto armado sobre o Ribeirão dos Porcos interligando o Bairro Santa Efigênia à avenida JK; construção de um parquinho infantil na Rua Gregório Motta, o qual posteriormente foi substituído pela edificação de um prédio Poliesportivo; construção de prédios escolares municipais nos Bairros Neves, Couto, Ribeirão Vermelho e Grotão; participação direta com toda a mão de obra na edificação do prédio do Asilo Padre Quinzinho; instalação de postos de saúde o Distrito de Olegário Maciel e os Bairros Santa Bárbara e Mato Dentro; construção de uma fonte luminosa no jardim da Praça Coronel Braz.
Em meados de 1988 iniciou-se a campanha política municipal. Até então, as campanhas eram mais serenas e, nos comícios, os candidatos expunham a sua plataforma de governo. A partir de 1988, muito da postura ética anterior se perdeu. Foi o início dos comícios nos quais os candidatos além de exporem suas plataformas de governo, incluíam também ataques menosprezando os adversários. As eleições ocorreram em outubro de 1988 com os candidatos à Prefeito: Celso Carvalho Motta e José Jair Ribeiro pelo PFL, Guido Ribeiro de Castro e Salomão Machado pelo PMDB, Sebastião Carlos Braga e Dimas de Arimatéia Martins Reno, pelo PT. No dia 10 de janeiro de 1989 tomaram posse Celso Carvalho Motta e José Jair Ribeiro, e os vereadores Genoveva de Carvalho Gonçalves, Francisco Pereira de Mendonça, Milton Pinto Andrade, Joaquim Manoel Mota, José Veloso Filho, Antônio Inácio Rodrigues, Joaquim Eduardo Lisboa, João Pereira Dias e Sebastião Vilas Boas Simões. As principais obras dessa administração foram: construção do prédio para o Posto de Saúde no Bairro Santa Efigênia; construção do campo de futebol municipal no Bairro Santa Efigênia; asfaltamento e colocação de meios-fios na rua do Cemitério; iluminação com o sistema de lâmpadas a mercúrio do trevo rodoviário no perímetro urbano de Piranguinho; pavimentação da estrada de acesso ao Distrito de Olegário Maciel; asfaltamento de suas ruas urbanas. Foi nessa administração que, pela primeira vez na sua história, a segurança policial de Piranguinho passou a contar com a permanência de um Delegado de Carreira, Dr. Daniel César Botto Collaço e de um Comandante Militar, Sargento Alexandre José de Paiva Venturelli. (Veja segurança policial em Piranguinho). Também foi nessa administração que a zeladoria do Cemitério Público de Piranguinho passou para a Prefeitura Municipal.
A oitava eleição municipal realizou-se em outubro de 1992 com os candidatos à Prefeito: João José dos Reis e Sebastião Francisco de Andrade pelo PFL, Paulo Rodrigues Fernandes e João Bosco Fernandes pelo PT, Carlos Motta e Sebastião Celso Braga pelo PSB. Tomaram posse, em 10 de janeiro de 1993, João José dos Reis e Sebastião Francisco de Andrade, assim como os vereadores Genoveva de Carvalho Gonçalves, Jair Veloso, José Eduardo Mota, José Jair Ribeiro, Sebastião A. da Silva, Benedito Dias, Ailton C. de Andrade, Pedro Pereira da Silva e José Pereira Goulart. Em meados do mês de dezembro de 1994, por motivo de saúde, o prefeito João José dos Reis licenciou-se do cargo e foi substituído pelo seu vice-prefeito, Sebastião Francisco de Andrade. João José dos Reis veio falecer no dia 10 de janeiro de 1995.
Em outubro de 1996, disputaram as eleições Carlos Mota e José Renó Cândido pelo PSB, Regis Carvalho Mota e Guido Ribeiro de Castro pelo PFL, Paulo Rodrigues Fernandes e João José Martins de Mendonça pelo PT. Tomaram posse, no dia 10 de janeiro de 1997, Carlos Motta e José Renó Cândido, além dos vereadores eleitos Genoveva de Carvalho Gonçalves, José Jair Ribeiro, Pedro da Silva, Mário Lúcio Silva, Natalino Ribeiro dos Santos, Adão Raimundo Batista, Sebastião Carlos Braga, José Pereira Goulart e José Veloso. As principais obras dessa administração foram: construção de uma ponte para pedestres sobre o Rio Sapucaí interligando o Bairro Beira Rio ao Bairro Mourão, do município de Itajubá; pavimentação das ruas de acesso ao Bairro Beira Rio; construções do prédio escolar municipal, posto para Agência do Correio e estação de tratamento de água no Bairro Santa Bárbara; implantação de adutora de água no Distrito de Olegário Maciel. Foi nessa administração que se realizaram a primeira festa do Pé-de-moleque e a primeira sonorização para o carnaval popular de rua na cidade. Essa administração zelou pela conservação do município, foi moderada com a receita municipal e deixou um saldo econômico positivo.
17. EVANGÉLICOS: OS PIONEIROS
Em 17 de abril de1968, foi inaugurada a primeira Igreja Evangélica Assembléia de Deus, na Avenida JK. A construção da igreja foi iniciativa de José Pinto de Oliveira, conhecido como Barão, que também doou o terreno para a obra. A construção foi realizada com a colaboração financeira dos seguidores da Doutrina. José Pinto de Oliveira, nascido em 6 de março de 1907, veio a falecer em 1º de dezembro de 1994, deixando a esposa Júlia Maria de Jesus e os filhos João, Jorge, Moisés, Paulo, Maria Aparecida, Izabel e Francisco. Deixou muitas saudades. Quando católico, trabalhou e foi um dos que colocaram as primeiras pedras da Igreja Matriz de Santa Isabel. Foi da Congregação Mariana e ao se tornar evangélico, ocupou a função de Diácono até sua morte.
18. CEMITÉRIO: O FIM DE TODOS
Em 1936, a comunidade de Piranguinho passou a administração do cemitério para Igreja de Santa Isabel, dirigida pelo Padre Joaquim de Oliveira Noronha, que coordenava uma comissão formada por Adelmo Pereira Guimarães, José Carneiro, Inácio Tertuliano Gomes, Luiz Francisco Renó, Antônio Carneiro e Antônio de Oliveira Godoy. Em 1944, o Bispado de Pouso Alegre comprou seiscentos metros quadrados do terreno que circundava o cemitério para ampliá-lo. Com o passar do tempo, verificou-se que a paróquia não estava mais conseguindo cuidar do cemitério. Este era capinado por voluntários, mas sua limpeza e conservação não mais estavam sendo feitas. Em 1988, Joaquim Mota de Almeida e Dona Maria José Caridade Carneiro tomaram a iniciativa de reformá-lo e iniciaram a Campanha pró-Cemitério. Mandaram imprimir panfletos e distribuíram entre a população. Contaram com o apoio do pároco, Padre José Aparecido de Pádua, de Ademar Renó e com a eficaz colaboração da Prefeitura Municipal através do prefeito João José dos Reis e do fiscal geral José Jair Ribeiro. A reforma teve início no dia 8 de julho e foram tomadas as seguintes medidas: eliminação das erosões; construção do ossário; limpeza geral; alinhamento e divisão por quadra: A-B-C-D-E-F-G e H; marcações das covas existentes com cruzes numeradas; abertura de um portão lateral para serviços; construção de quatro passarelas calçadas; instalação interna de água; construção de um alojamento para portaria e guarda de ferramentas; compra de ferramentas: enxadas, enxadões, pás, vassouras, carrinho e regadores; apresentação de requerimento à Câmara Municipal solicitando um servidor público para zelador. A reforma foi concluída em novembro do mesmo ano. O cemitério passou para a administração e responsabilidade do Poder Municipal na gestão do prefeito Celso Carvalho Motta, entre os anos 1989 e 1992.